segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Os sulcos da sede



Não tardará a chegar ao fim 
 este agosto que te viu passar com a luz
 a teus pés. Somos eternos, dizias.
 Eu pensava antes na danação
 da alma ao faltar-lhe o alimento
 que lhe trazias. Agora a cidade vive
 do peso incomensuravelmente morto
 dos dias sem a tua presença. Deixo
 a mão correr sobre o papel tentando
 captar o eco de uma palavra,
 um sinal de quem em qualquer parte 
 cintila, e confia ao vento o segredo 
 da nossa tão precária eternidade.





 Eugénio de Andrade