sexta-feira, 18 de outubro de 2019

post it



Enquanto se dá um nome ao sofrimento e um rosto àquilo que nos fere, 
estamos ao abrigo da loucura.






Agustina Bessa-Luís
 (Foto de Saul Leiter)

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

podia vir o que viesse



Hoje podia vir o que viesse: 
o que fosse poesia 
ou a noite selvagem na 
garganta

podia vir 





Ana Luísa Amaral





sábado, 12 de outubro de 2019

memória



Se o outono 
fosse o cheiro de frutos
 na memória 

 e os frutos
 a calma dos sentidos

 o nosso rosto com luz
 ou neon
 pelos cabelos 
seria um retrato de mágoa 
olhando o chão 







 António Reis

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

murmúrio





 o meu medo era mirrares 
em melancolia sem fim, 
perto de mim, 
longe do princípio do mundo
 onde nasceste. 
murmurei-te 
a mesma melodia, 
dia após dia,
 música mineral, rocha metamórfica,
 melindrosa manifestação nasal
 bilabial 
e muito mais.
 Pierre Magnol saberia cuidar de ti, 
magnólia
 monofilética, 
estética harmonia em pétalas paradoxais, 
hóstias pagãs, 
és tu a 
flor de mim.

(com três das minhas palavras a flor fez poesia
                                   obrigada)




segunda-feira, 7 de outubro de 2019

o coração desarrumado



De nada me valeram, os que vieram depois do que entre nós não houve. Por tua causa perdi o olfacto e o paladar e todos os homens me sabem ao mesmo. Procurei-os nos antípodas de ti e cuidei de escolher formatos e feitios que não os teus, numa fuga em frente, como se. Nuns casos, diverti-me; noutros, arrependi-me, mas sempre a porcaria do coração aos solavancos, a malbaratar-me em entusiasmos pré-fabricados, que cansaço. Quiseram-me muito e tratam-me bem, mas vai dar ao mesmo porque não tenho escolha: passados dias, e a minha carne rejeita-os como se o transplante falhado de um órgão estranho. Quanto ao resto, amo-te sem o menor indício de desespero; apenas deixo que a tristeza me faça cócegas numa ou outra lua nova, e é se me distraio. Não tenho qualquer esperança de que tu um dia qualquer coisa, pois foges de mim como o diabo da cruz e é assim que deve ser. Quem sabe só me interessas enquanto obstáculo intransponível contra o qual gostaria de chocar, esparvoada, algures ainda neste tempo de vida. És um empata, o meu empecilho de estimação, um chove não molha que me embaraça e me troca as voltas, mas eu já não saberia viver de outra maneira. Tenho cá dentro a persistência devota de uma mulher de província, enganada pela lábia de um caixeiro-viajante, que gasta as horas num desvelo obsessivo para com o filho ranhoso que é a cara do pai








sexta-feira, 4 de outubro de 2019

não estás


Todos os meses
 te escondes 
na tua própria casa 
e o cobrador sabe sempre
 quando o silêncio tem pó 
e é perfeito. 





 António Reis

terça-feira, 1 de outubro de 2019

sábado, 28 de setembro de 2019

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

mais tarde



agora não. talvez daqui a uma hora, amanhã, depois de amanhã, mais tarde, mas agora não. agora aguenta-te,
 finge que és forte, sorri ou, pelo menos, puxa os cantos da boca para cima: 
se mantiveres os olhos secos vão pensar que é um sorriso






António Lobo Antunes
 (Foto de Ezgi Polat)

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

no meio do caos



Ainda és tu,
 coração secreto à deriva pelos dias, o senhor
 do meu canto. 
 Por ti cheguei e parto.
 A minha casa é onde estás. 






 José Agostinho Baptista

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

o sangue a ranger nas curvas apertadas do coração



Como tu me dóis, tenho alguma natural tendência para dizer - ou pelo menos para pensar, ou pelo menos para sentir - como tu me dóis. Porém, dores é aquilo que o nosso corpo melhor sabe e é com elas e é por elas que vai aqui e vai além - ou simplesmente fica onde já estava, na plenitude de não haver mais nada. Quando o amor surgiu - difícil dizer quando foi, acordei e estava no meio do mar, sem terra à vista; saudades de terra?, nem um bocadinho - fosse lá quando fosse já era de sempre que vinha: tu, o amor, os enganos. Os empenhamentos e os enganos. Quando aconteceu tingi-me de uma dor nova e todas as dores que eu já tinha, tantas e nenhuma e todas as minhas alegrias, parcas alegrias, mudaram de cor, mudaram de voz. Outras as dores, outras as cores, outros também os sons. Até os gritos soam de outra maneira, como que se expandem numa nova ampliação. E tudo o mais que acontece, se é que posso falar de um mais que não sejas tu ainda, é no meio de uma grande paz que acontece - e é da boca do pânico que vem, naturalmente, tão assim naturalmente, podia dizer, como a água vem das fontes ou a chuva cai do céu. Tão prosaica e milagrosamente. Como podem assim coexistir paz e alarme, nunca na vida mo saberei explicar. Como podem mesmo não se distinguir, serem até uma e a mesma coisa? Perguntas que não querem resposta, não há resposta para a dor de ser. A dor maior que é tu existires, a dor maior de alguém se aperceber - e porquê eu - em realidade qual delas a maior. Uma e outra tão sem lugar e sem jeito, uma com a outra se confundindo afinal. Quando dei por mim estava no meio do mar sem terra à vista. Alguém ainda acreditava no conforto que o amor pudesse trazer? Não éramos a esse ponto ingénuos. Amar-te não podia ser senão isso: uma dor. Uma dor em mim e eu nela, uma dor que não mata, um mal-estar de que se não vive. É, apesar de tudo, um lugar, é o meio do mar. É o mais horrível do mar que é o meio. Olha-se em volta e não há nenhum passado que preste, nenhum futuro que meta cobiça. Lugar do amor - asfixia e amor. Que só dá mesmo para respirar, e mal, e para beber, muito. Não álcool, água salgada. Exactamente o meio do mar. Sem outra terra à vista que não, bem a toda a volta, a dor de amar-te. 






Rui Caeiro

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

de tudo ficou um pouco



 Do meu medo
 Do teu asco 

   
de ternura ficou um pouco
 (muito pouco)






Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Saul Leiter)

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

nem sequer um poema



É nas linhas das mãos que os deuses escrevem
 os mais belos romances. Nas nossas porém somente 
 elaboraram um divertimento um esboço um rascunho
 nem sequer literatura.






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

epílogo



Arrependo-me de tanta queixa inútil, 
de tanta
 lamentação impertinente 
São as regras do jogo inapeláveis
 e justificam toda, qualquer perda. 
Agora
 só o inesperado ou o impossível
 poderia fazer com que eu chorasse

 uma ressurreição, nenhuma morte. 






 Angél González
(Foto de Monia Merlo)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

torpor



Empurro-te com o 
vinho
 já que tenho de te esquecer 

 como se aí o teu corpo
 escorregasse melhor
 ou aí escorressem melhor
 as horas 

 restando apenas borras 
do que foi torpor 






 Daniel Jonas

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

é verão



Sonho contigo aos beijos
 entre as minhas pernas, 
acordo, não acordo, quase não durmo, 
abro as persianas,
 fervo água,
faço um chá escuro como café, 
uma torrada com manteiga, 
de olhos fechados, 
queimo a língua,
 arde menos do que os meus pensamentos, 
de olhos fechados, 
como a torrada como se fosse um figo, 
enfio o Verão na boca, 
foste o meu Verão, 
só tive um Verão,
 de olhos fechados não chove, 
de olhos fechados é Verão 







 Raquel Serejo Martins