Mostrar mensagens com a etiqueta Forugh Farrokhzad. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Forugh Farrokhzad. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 2 de junho de 2015



Mais do que isto, sim 
Mais do que isto, podemos ficar caladas. 
Com um olhar parado
 como aquele dos mortos. 
Podemos fixar durante longas horas
 o fumo a sair de um cigarro 
a forma de uma chávena
 a flor esbatida no tapete
 o slogan a desaparecer na parede. 
Podemos afastar as cortinas 
com dedos enrugados e ver
 a chuva cair fortemente no beco 
uma criança parada na porta
 com um colorido papagaio de papel 
uma carripana a sair da praça vazia
 numa pressa barulhenta. 
Podemos estar ali paradas 
Ao pé das cortina – cegas, surdas 
Podemos gritar com uma voz bastante falsa, bastante remota
 “eu amo” 
 Nos braços dominadores de um homem
 podemos ser uma saudável e bonita mulher. 
Com um corpo como uma toalha de mesa de cabedal 
com dois grandes e duros peitos, 
na cama com um bêbedo, um louco, um vadio 
podemos manchar a inocência do amor. 
 Podemos degradar com astúcia 
todos os mistérios profundos 
podemos continuar a resolver palavras cruzadas
 a descobrir alegremente as respostas sem sentido
 respostas sem sentido, sim – de cinco ou seis letras. 
Com cabeça inclinada, podemos ajoelhar-nos uma vida inteira perante a grade dourada de um túmulo
 podemos encontrar deus numa sepultura sem nome 
podemos trocar a nossa fé por uma moeda sem valor 
podemos apodrecer no canto duma mesquita 
como um velho recitador de orações de peregrinos.
 Podemos ser constante como o zero 
Nas somas, subtracções, ou multiplicações. 
Podemos pensar nos teus - mesmo nos teus – olhos 
Como buracos sem brilho nuns sapatos velhos. 
Podemos secar-nos numa bacia, como água. 
 Com vergonha podemos esconder a beleza de um momento juntos
 no fundo de um baú 
como uma velha e estranha foto, 
na moldura vazia de um dia podemos mostrar 
a imagem duma execução, duma crucificação, ou de um martírio, 
podemos tapar as rachas na parede com uma máscara
 podemos lidar com imagens mais ocas do que essas. 
 Podemos ser como bonecas de corda 
e olhar para o mundo como olhos de vidro
 e jazer durante anos entre rendas e lantejoulas 
o corpo recheado de palha
 dentro de uma caixa de feltro,
 e a cada toque de luxúria 
gritar sem nenhuma razão 
“Ah, que feliz sou!” 





 Forugh Farrokhzad

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Uma janela




Uma janela ser-me-á suficiente
Uma janela para o momento da consciência
Da observância
E do silêncio.



Forugh Farrokhzad

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Sexta feira


Tranquila Sexta-feira
abandonada Sexta-feira
Sexta-feira cada vez mais triste como ruelas antigas
Sexta-feira de indolentes pensamentos indispostos
Sexta-feira de sinuosos e nefastos espreguiçamentos
Sexta-feira de nenhuma expectativa
Sexta-feira de rendição.
Casa vazia
casa solitária
casa trancada contra a investida da juventude
casa da escuridão e ânsias de sol
casa de solidão, augúrio e indecisão
casa de cortinas, livros, guarda-louça, fotografias.
Ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena
como uma corrente profunda
através do coração dessas silenciosas, abandonadas Sextas-feiras
através do coração dessas tristes casas vazias
ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena
.


Forough Farrokhzad
(Versão de Vasco Gato)



segunda-feira, 14 de março de 2011

Poemas perfeitos em noites escuras




A noite chega
e depois da noite a escuridão
e depois da escuridão
olhos
mãos
e respiração e mais respiração
e o som da água
que da torneira
goteja goteja goteja.

Em seguida dois pontos vermelhos
de dois cigarros acesos
o tique-taque do relógio
e duas cabeças
e duas solidões.




Forough Farrokhzad