segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eis-me


Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente









Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, 4 de outubro de 2009

Dedicado


mana
Ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorriso a cair
e a gritar de alegria ao mergulhar
na água ao procurar um abraço que
não precisa de ser dado serão
sempre os teus e os teus e os meus
cabelos molhados na respiração
suave das parreiras sempre as tuas
e as tuas e as minhas mãos que não
precisam de se dar para se sentir
ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre
juntos nesta tarde de sol de julho
a nadarmos sob o planar sereno dos
pombos no tanque pouco fundo da
nossa horta sempre no tanque fresco
da horta que construíram para nós
para que na vida pudéssemos ser
mana e mana e mano sempre..
José Luís Peixoto

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Por dentro de mim


Então beijo-te: e é como se tocasse o sol, como se a sua chama me queimasse, sem doer, ou como se a luz entrasse por dentro de mim


Nuno Judice






Estranha forma de vida

...Que estranha forma de vida tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
Coração independente
Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr...

Alfredo Duarte / Amália Rodrigues

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Noites Assim


Se não me amas, porque me avisas da dor?



Maria do Rosário Pedreira

Outro poema de amor


Outono, pássaro de melancolia
num céu sem cor que não promete nada,
mar de insónia onde o teu corpo paira
ou um aroma de terra molhada


 Eugénio de Andrade