sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pietà

Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é.

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Onde só ele


tragam-mo ainda que ao
longe esse amor meu
tragam-mo
por favor ainda que ao
longe a ver-me o vazio dos
olhos onde só ele pode caber






Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aqui e agora



O poema é aqui, quando levanto o olhar do papel e deixo as minhas mãos tocarem-te




José Luís Peixoto

sábado, 2 de outubro de 2010

Metade


Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa
Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio
Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde
Metade mulher metade sonho





Jorge de Sousa Braga

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Memórias


Quero falar-te deste amor, como de um vento amordaçado na camisa; uma febre de verão que o mercúrio não acha; um telhado esmagado pela ideia da chuva. Quero dizer-te que sobre ele pairaram sempre brumas e nevoeiros e profecias de temporais maiores, como os que levam para longe os corpos dos navios. Não há notícias deste amor; apenas uma intriga, um recado sonâmbulo, um temor que desmaia as pregas do vestido e um sortilégio urdido nas paisagens suspensas de um mapa que aperto na mão sem desdobrar.
E há memórias deste amor?
A voz sem as palavras, um livro lido às escuras, um bilhete cifrado deixado num hotel, um velho calendário cheio de desencontros?
Não, não há memória deste amor.


Maria do Rosário Pedreira