quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Hoje

Queria escrever-te uma carta
amor
Mas tenho hoje um bico de pássaro
na ponta de cada dedo

Rui de Morais



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Devo ser




Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera.Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir
.


Daniel Faria

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mortal e navegável




Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável



Eugénio de Andrade



sábado, 5 de fevereiro de 2011

Esta noite




... A tua distância é a minha morte,
o meu suplício de entreabrir portas
que dão para o vazio das grandes ausências.
...
e não sei o que te diga,...
Esta noite dás-me a medida
do desamparo pleno que em mim se acolhe.



José Jorge Letria

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Diz que sim




Quando te beijo o beijo que tu me beijas
é que a flor envolve a terra que toca a flor



E é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós


Vasco Gato


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dias assim




Se eu soubesse dar às palavras o rumor lento e raso dos teus dedos
Sagrar o ritmo das inconfidências no crepúsculo de um poema
E silenciar as esperas na última pausa de um beijo
Deixar-te-ia esta carta num recanto da tua pele
.





Sandra Costa