quinta-feira, 5 de março de 2015




Vou pôr um anúncio obsceno no diário
 pedindo carne fresca pouco atlética 
e nobres sentimentos de paixão. 
Desejo um ser, como dizer, humano 
Que por acaso me descubra a boca
 e tenha como eu fendidos cascos 
bífida língua azul e insolentes
 maneiras de cantar dentro de água. 
Vou querer que me ame e abandone
 com igual e serena concisão 
e faça do encontro relatório 
ou poema que conste do sumário 
nas escolas ali além das pontes
 E espero ao telefone que me digam 
se sou feliz, real, ou simplesmente 
uma espuma de cinza em muitas mãos. 





 António Franco Alexandre
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 4 de março de 2015




Há pessoas que demoram tanto tempo a deixar-nos. 





António Lobo Antunes
 ( Foto de Hiroshima Mon Amour )



Não espero nada. Mas do nada quero tudo. A absoluta negação. A sala do fundo, não o pórtico. 
 Um negrume tão escuro que o imagino estalando em centelhas de uma luz desconhecida. 
 Sangrando luz. Tormento sem desespero. Aliviado. Etéreo e eterno.
 Dôr no fundo dos olhos bem abertos. 





 Miguel Martins

terça-feira, 3 de março de 2015




A minha casa é este corpo que parece uma mulher, 
não preciso de mais paredes e dentro tenho
 muito espaço 
este deserto negro que tanto te assusta 




 Miriam Reyes
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 2 de março de 2015




Venham ver, venham, 
a minha oculta ferida. 
Tem rebordo roxo 
e paixão ao meio.
 É bonita e quero-lhe muito.
 É flor de passiflora à botoeira
 da pele que subpulsa, 
que repulsa, 
meus audiovisuais que aguentam tudo:
 minha náusea, meu coração-culpa. 
 Brinco enquanto finjo um outro assunto. 
Rif-raf é um brinquedo de criança 
ou nada quer dizer
 senão imagem onomatopaica.
 Diagrama, indica infecção 
palustre de água-viva e memória 
tão secreta que não mata. 
 Vê-se e não se vê 
a minha oculta ferida. 
Mas tem cruzes e espinhos. 
No centro uma gota brilha 
rocio
 ou som murmurado
 que se transmite sem pedir palavra. 
 A minha ferida sangra 
 como que entornada. 
Venham ver, entrem,
 que não se paga nada. 





 Ruy Cinatti

domingo, 1 de março de 2015

Ofício




Armazenar sofrimento. 

 Distribuí-lo depois
 límpido. 





 António Osório
 (Foto de Natalia Drepina)