terça-feira, 7 de abril de 2015




Difícil é regressar: sobretudo quando a memória se perde entre quedas e solavancos, sobretudo quando estamos próximos
 da pele das mãos e não temos outra pele das mãos, sobretudo quando se tornou impossível atravessar de novo a fronteira do olhar, 
sobretudo quando um velho cão não ladra mais aos pássaros que rodopiam perto da casa, sobretudo quando as ironias não prestam
 e quando nada há a temer entre tudo o que mete medo. 





 João Ricardo Lopes
 (Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 6 de abril de 2015











Como todos os seres comuns, fiz as minhas feridas. 
 Umas cicatrizaram. Outras não: 
 vão continuar abertas até que deixe de fazer sentido falar-se nelas 






Carlos Alberto Machado

sexta-feira, 3 de abril de 2015




De ti e desta nuvem; desta nuvem
 branca como voo de pássaro
 em manhã de abril; de ti
 e da íntima chama de um fogo 
que não consente extinção; 
de ti e de mim fazer um só acorde,
 um acorde só; para não te perder.






 Eugénio de Andrade
 (Natalia Drepina)

quinta-feira, 2 de abril de 2015




Cinema fechado, melancólico 
o arrumador, portões
 a cadeado, ruído abafado de matinés, 
fria a rua, de lado a lado, a cena 
em cinemascope restaurado 
mas a memória no negrume horizontal, 
premeditado, das barras. 





Pedro Mexia

quarta-feira, 1 de abril de 2015




Pus o meu sonho num navio
 e o navio em cima do mar;
 - depois, abri o mar com as mãos,
 para o meu sonho naufragar 





 Cecília Meireles
 (Foto de Natalia Drepina)