domingo, 31 de maio de 2015




Tenho uma dor de concha extraviada. 
Uma dor de pedaços que não voltam. 





 Manoel de Barros

sexta-feira, 29 de maio de 2015




Quero um cavalo de várias cores, 
Quero-o depressa, que vou partir.
 Esperam-me prados com tantas flores, 
Que só cavalos de várias cores 
Podem servir. 
 Quero uma sela feita de restos 
Dalguma nuvem que ande no céu.
 Quero-a evasiva - nimbos e cerros - 
Sobre os valados, sobre os aterros, 
Que o mundo é meu. 
 Quero que as rédeas façam prodígios: 
Voa, cavalo, galopa mais, 
Trepa às camadas do céu sem fundo, 
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo, 
Para onde tendem as catedrais. 
 Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores. 
Tenho a loucura, sei o caminho, 
Mas como posso partir sozinho 
Sem um cavalo de várias cores? . 





 Reinaldo Ferreira
 (Foto de Nishe)

sábado, 23 de maio de 2015



Joan Miro


No auto-retrato que me faço
 - traço a traço -
 às vezes me pinto nuvem, 
às vezes me pinto árvore
 às vezes me pinto coisas
 de que nem há mais lembrança 
ou coisas que não existem 
mas que um dia existirão 
 e, desta lida, em que busco
 - pouco a pouco - 
minha eterna semelhança,
 no final, que restará? 
Um desenho de criança 
 Corrigido por um louco! 





 Mario Quintana

sexta-feira, 22 de maio de 2015




E um acaso se alguém me ouviu pronunciar as palavras do amor. 
 Nunca o digo. 
 Tenho medo de me estilhaçar contra a inquietação das horas 





 Al Berto
 (Foto de Nishe)