sábado, 6 de junho de 2015




um poema que é só nosso . um post it amarrotado no bolso. uma palavra secreta. uma estrada sem saída. uma noite ao relento a contar estrelas. o nome de todas as constelações. o canto das cigarras riscando o silêncio. o corpo nu no chão quente. os girassois a perder de vista. e as papoilas. um abraço apertado. um beijo roubado. uma caricia. um desejo só sonhado. livros lidos pela noite dentro. noites sonhadas. um desgosto de amor. fotografias gravadas na memória. a dor que se esconde. o medo do escuro. a saudade do que se perdeu. as cartas de amor que nunca mandamos. aquele poema escrito e rasgado. a chuva na pele. o arrepio no corpo. a t- shirt branca. os pés descalços. o som de certas palavras. o cheiro das magnólias, da terra molhada e da maresia. o som do silêncio. a voz rouca de tom waits. uma vela acesa. um copo de tinto. um silêncio partilhado. alguns lugares secretos. voltar a casa. os gatos a nossa espera. o baloiço no quintal. a esperança perdida. o começar de novo. o que não lembramos. o que não esquecemos. a voragem do tempo. o tempo tão lento. um beijo no pescoço. o não saber o que fazer com as mãos. os velhos amigos. as duvidas antigas. as certas certezas. um gelado de canela. o velho disco de piazolla. um olhar em silêncio que nunca se esqueceu. o cheiro dos livros. o sabor das cerejas. a praia deserta. a chave atrás do vaso. a espera por quem não volta. o desejo na ponta dos dedos. aqueles poemas que saram as feridas








sexta-feira, 5 de junho de 2015




Trazemos no fundo do casaco
 algumas canções usadas 
— e achamos, por vezes, que 
é para nós que as estrelas brilham,
 entre prédios demolidos e amores também. 
Acabamos, mais cedo ou mais tarde, 
por acreditar no silêncio.
 A felicidade, para outros, continua válida. 
Mas disso, obviamente, nada podemos saber. 





 Manuel de Freitas
 (Foto de Natalia Drepina)

quinta-feira, 4 de junho de 2015




Eu tive um cão ou era ele 
que me tinha e me deixava à solta 
guiada sem saber que ia. 
Tomava as minhas feridas,
 a tristeza que eu pudesse ter 
e sofria dela como eu nem sofria. 
Trocava de mal trocando-lhe as voltas. 
Punha a coleira ao pescoço 
e levava-me a passear 
como se eu fosse o dono. 
E à noite dormia no chão 
ou então fingia. Eu acordava 
com um servo aos pés da cama, 
armava-me em amo
 e era ele que me tinha. 
Exímio no silêncio 
e no uso das armas
 com que me defendia 
de todos e também de mim:
 a linha veloz do pêlo luzidio, 
o frémito da língua, 
o focinho em arco para a escuta. 
Era um cão que me tinha 
e uma tarde de verão
 atirei-lhe um osso gostoso 
antes de o deixar no canil. 





Rosa Alice Branco
 (Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

terça-feira, 2 de junho de 2015



Mais do que isto, sim 
Mais do que isto, podemos ficar caladas. 
Com um olhar parado
 como aquele dos mortos. 
Podemos fixar durante longas horas
 o fumo a sair de um cigarro 
a forma de uma chávena
 a flor esbatida no tapete
 o slogan a desaparecer na parede. 
Podemos afastar as cortinas 
com dedos enrugados e ver
 a chuva cair fortemente no beco 
uma criança parada na porta
 com um colorido papagaio de papel 
uma carripana a sair da praça vazia
 numa pressa barulhenta. 
Podemos estar ali paradas 
Ao pé das cortina – cegas, surdas 
Podemos gritar com uma voz bastante falsa, bastante remota
 “eu amo” 
 Nos braços dominadores de um homem
 podemos ser uma saudável e bonita mulher. 
Com um corpo como uma toalha de mesa de cabedal 
com dois grandes e duros peitos, 
na cama com um bêbedo, um louco, um vadio 
podemos manchar a inocência do amor. 
 Podemos degradar com astúcia 
todos os mistérios profundos 
podemos continuar a resolver palavras cruzadas
 a descobrir alegremente as respostas sem sentido
 respostas sem sentido, sim – de cinco ou seis letras. 
Com cabeça inclinada, podemos ajoelhar-nos uma vida inteira perante a grade dourada de um túmulo
 podemos encontrar deus numa sepultura sem nome 
podemos trocar a nossa fé por uma moeda sem valor 
podemos apodrecer no canto duma mesquita 
como um velho recitador de orações de peregrinos.
 Podemos ser constante como o zero 
Nas somas, subtracções, ou multiplicações. 
Podemos pensar nos teus - mesmo nos teus – olhos 
Como buracos sem brilho nuns sapatos velhos. 
Podemos secar-nos numa bacia, como água. 
 Com vergonha podemos esconder a beleza de um momento juntos
 no fundo de um baú 
como uma velha e estranha foto, 
na moldura vazia de um dia podemos mostrar 
a imagem duma execução, duma crucificação, ou de um martírio, 
podemos tapar as rachas na parede com uma máscara
 podemos lidar com imagens mais ocas do que essas. 
 Podemos ser como bonecas de corda 
e olhar para o mundo como olhos de vidro
 e jazer durante anos entre rendas e lantejoulas 
o corpo recheado de palha
 dentro de uma caixa de feltro,
 e a cada toque de luxúria 
gritar sem nenhuma razão 
“Ah, que feliz sou!” 





 Forugh Farrokhzad

segunda-feira, 1 de junho de 2015




como sou incapaz de contar histórias fotografo corpos
 muitas vezes como maneira de agarrar o vento 
faço construções de quem conhece por dentro a monotonia 
e para aumentar o grão 
 anoto o vermelho que trespassa o olhar vazio 





 Maria Sousa