terça-feira, 7 de julho de 2015




É quando um espelho, no quarto,
 se enfastia; 
Quando a noite se destaca 
da cortina; 
Quando a carne tem o travo
 da saliva, 
e a saliva sabe a carne 
dissolvida; 
Quando a força de vontade
 ressuscita; 
Quando o pé sobre o sapato 
se equilibra 
E quando às sete da tarde
 morre o dia
 - que dentro de nossas almas 
se ilumina, 
com luz lívida, a palavra 
despedida. 






 David Mourão-Ferreira
(Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 6 de julho de 2015




Pergunta-me 
  se eras tu 
 quem eu via 
 na infinita dispersão do meu ser 
 se eras tu
 que reunias pedaços do meu poema 
 reconstruindo
 a folha rasgada 
 na minha mão descrente 






 Mia Couto
(Foto de Nishe)

domingo, 5 de julho de 2015




Escreveu-me cartas. Enviou-me
 uma roldana de ferro 
daquelas que se usam para tirar
 água dos poços. Enrolou-lhe um poema 
em vez da corda que tem de 
suster o balde. Podes falar -
 -me de ti: quando estou cansado 
eu sou um bom ouvinte. 





 João Miguel Fernandes Jorge
(Foto de Nishe)

sexta-feira, 3 de julho de 2015




O amor
 é uma corrida imparável 
entre dois
 (ou mais)
 O primeiro a chegar
 perde 






 Gonzalo Fragui

quarta-feira, 1 de julho de 2015




Quem assim tem o verão
 dentro de casa 
 não devia queixar-se de estar só 





 Eugénio de Andrade