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domingo, 10 de março de 2019

mas de nada serve inventar palavras



Eu gostava de poder dizer
 que entrei no teu corpo como um pássaro 
espreitando através de invisíveis ruínas
 e que o som da tua voz bastava
 para me salvar








 Alice Vieira
(Foto de Laura Makabresku)

domingo, 30 de dezembro de 2018

onde tudo já se perdeu



só muito tarde percebi que
 o nosso amor era apenas um
 inquilino temporário da nossa pele 
roubado sabe-se lá a quem 
até ao dia em que disseste       tenho pressa 







 Alice Vieira

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

olha-me como quem chove




Estendo na cama o corpo que há-de
 ser o porto a que esta noite vais chegar. 
 E entre névoas e ventos hei-de ver
 o barco dos teus dedos ancorar
 na margem mais secreta do desejo.
 E há-de haver um mapa ali por perto
 que te leve à enseada do meu beijo 
 e à fogueira de tudo o que está certo. 
 E na respiração da tua boca
 bebo o grito da terra sempre pouca
 para a noite em que ficarmos sós.
 Mas o corpo descansa apaziguado:
 sei que o sol já repousa do meu lado
 e que o teu rio já chegou à foz. 






 Alice Vieira

segunda-feira, 9 de novembro de 2015




entre a saliva e os sonhos há sempre
 uma ferida de que não conseguimos 
regressar 






 Alice Vieira
(Foto de Natalia Drepina)

sábado, 28 de março de 2015




E uma noite a vida 
começa a doer muito 
e os espelhos donde as almas partiram 
agarram-nos pelos ombros e murmuram 
como são terríveis os olhos do amor
 quando acordam vazios 





 Alice Vieira

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014




nunca há relógios certos para o tempo 
de quem nos abandona 




 Alice Vieira

sábado, 15 de novembro de 2014

Uma palavra esquecida



esperar que voltes é tão inútil como o
 sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais
 e no entanto de cada vez que
 a noite se rasga em barulhos e
 um telefone se debruça de
 uma qualquer janela
 sinto que ainda ficou uma
 palavra minha esquecida na
 tua boca e que 
vais voltar
 para
 a
 devolver 




 Alice Vieira

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

(Ballantines 12 anos para mim se faz favor)



Que limbo é este onde
 Pelo meio da noite às vezes aparecias 
Mas apenas para desfazer esquecidos silêncios 
Porque bem sabes ao terceiro Whisky
 O amor é sempre eterno 





 Alice Vieira
(Foto de Laura Makabresku)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Um dia


E chega um dia em que reconhecemos
 finalmente 
a injustiça das palavras -
 exactamente as mesmas
 para quem vai e para quem fica
 um dia 
em que não há mais passado para contar
 nem mais futuro para viver
 apenas uma velha cantiga a embalar
 uma casa desaparecida 
e este limbo ocasional
 onde o corpo espera que anoiteça




 Alice Vieira

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Poemas perfeitos em noites escuras

 

desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas, os sinais, a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor
e diz-me o que de mim amaste
noutros corpos, noutras camas, noutra pele
prometo que não choro
mas repete as palavras um dia minhas
que sem querer misturaste nas tuas
e levaste com as chaves de casa e os documentos do carro-
e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste





Alice Vieira

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Mas


deixa, por favor, ao meu corpo
o direito absoluto aos teus vinte anos
ao primeiro beijo, ao primeiro cigarro
ao indeciso movimento dos teus dedos
desabotoando a minha blusa.


Alice Vieira

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O que dói


Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero


Alice Vieira

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Dizer adeus





...
tão fácil assim
dizer adeus
sabendo que deus nem sequer assiste
à despedida


Alice Vieira

quarta-feira, 29 de junho de 2011

E voltar entre ruínas





A primeira coisa a fazer é escolher a faca
ou por outras palavras a maneira de poder acordar em camas desfeitas
de luas e mares
sonhando com o verão e todos os seus crimes lentos
depois há que não dar tréguas
e ocultar de imediato as provas
ou por outras palavras
desabitar de ti as ruas os quartos as molduras
a velha canção inutilmente decorada
e abrir a porta a quem chega desprevenidamente
e encontrar o teu rasto ainda intacto
e servir o café e a cicuta na mesma bandeja
Mas acima de tudo edificar de novo a casa entre ruínas
ou por outras palavras
enterrar na garganta um nome que era nosso
apagar dos muros da cidade os vestígios da noite
e por breves segundos iluminar ainda do teu sangue
a madrugada em que te perco

E fecho os olhos
E abro o gás



Alice Vieira







terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

sábado, 25 de setembro de 2010

Esperas


Às vezes uma palavra bastava para que eu soubesse que virias sempre ao meu encontro mas depois chegaram imprevistas tempestades que desenharam estranhas perdições no mapa dos teus dedos e as palavras que ninguém quis silenciaram a festa do meu corpo e cobriram o teu daquele silêncio imóvel dos lençóis que se estendem sobre as casas abandonadas no fim do verão.

Alice Vieira

domingo, 19 de setembro de 2010

Palavras mordidas

a língua sobre a pele o arrepio
os teus dedos nas escadas do meu corpo
as lâminas do amor o fogo a espuma
a transbordar de ti na tua fuga
a palavra mordida entre lençóis
as cinzas de outro lume à cabeceira
da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
nada do que era teu vou devolver

Alice Vieira

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Entra

 entra como quem morre no centro do fogo
entra como quem arde no centro do fogo
entra devagar no centro do fogo
e lavra-me

Alice Vieira