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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

ordem de despejo



Deu-me ordem de despejo
 o senhorio do meu coração, 
o que me fornece água e luz,
 diz que gasto muito, 
é um preço caro a pagar, 
e que deixo a casa fechada 
entristecer 
ele quer janelas abertas
 o riso solto das mulheres
 em voo picado 
assustado vaguearei pedindo água
 luz não 
que não quero ver
 não quero saber
 o que vai ele fazer 
com a casa onde me enterrei 
sobre mim deixei crescer uma árvore 






 Ana Paula Inácio

sábado, 28 de julho de 2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

acender a chama recomeçar a luz




Sabes como me fizeste noite? 
e como me obrigas a reaprender devagar
 o comprimento dos dias ? 






Ana Paula Inácio

sexta-feira, 8 de junho de 2018

resgate




de todas as vezes
 decapitada
 tornei a colocá-la
 sobre os ombros
 à cabeça
 que hoje
 deposito ao contrário

 para que não te veja 
quando olhar para trás






 Ana Paula Inácio

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

foda-se



Livra-me das tentações 
 de fugir ao fisco 
e que em Fevereiro pague sempre 
os meus impostos. 
Afasta-me do supérfluo e 
da vaidade e recorda-me que 
um dia hei-de ter hemorróidas. 
E não me deixes cair no pecado 
da ideologia
 para que não leve com o proletariado nas trombas.
 Guia-me pelos caminhos do amor
 até um centro comercial 
onde o amado me acompanhará
 a experimentar um a um cada vestido. 
E, por último, faz com que
 todo o iogurte que coma seja
 — foda-se! — 
de morango. 





 Ana Paula Inácio

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Em forma de asas


Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido



Ana Paula Inácio

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cálice

O meu corpo
como se fosse o cálice
o meu sangue como se fosse o vinho
estas as palavras da vida eterna
até que dure
o sopro que as insufla
do pó em que se desfazem
esse pó que enegrece o cálice
o cálice donde escorre o vinho.

Ana Paula Inácio