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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

de tudo ficou um pouco



 Do meu medo
 Do teu asco 

   
de ternura ficou um pouco
 (muito pouco)






Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Saul Leiter)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

dezembro



Quem me acode
 à cabeça e ao coração
 neste fim de ano, 
entre alegria e dor? 

 Que sonho, 
que mistério, 
que oração? 

 Amor. 






 Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Nishe)

terça-feira, 10 de julho de 2018

maneira de amar



O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza. Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião. O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho. Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava. 







Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 
 Tempo de absoluta depuração. 
Tempo em que não se diz mais: meu amor. 
Porque o amor resultou inútil.
 E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
 E o coração está seco. 









 Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 23 de novembro de 2014

Domingo



Nenhum desejo neste domingo 
 nenhum problema nesta vida 
o mundo parou de repente
 os homens ficaram calados 
domingo sem fim nem começo. 
 A mão que escreve este poema 
não sabe o que está escrevendo
 mas é possível que se soubesse 
nem ligasse 




 Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Katia Chausheva)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Liquidação


A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.



Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Fim de Ano


Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
AMOR


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 30 de agosto de 2009

Uma flor..

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe,
bondes,
ônibus,
rio de aço do asfalto do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia,
rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.



Carlos Drummond de Andrade (A Flor e a Náusea)