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domingo, 22 de dezembro de 2019

é natal



É Natal, nunca estive tão só. 
 Nem sequer neva como nos versos
 do Pessoa ou nos bosques 
 da Nova Inglaterra. 
 Deixo os olhos correr 
 entre o fulgor dos cravos 
 e os dióspiros ardendo na sombra. 
 Quem assim tem o verão
 dentro de casa
 não devia queixar-se de estar só, 
 não devia. 






 Eugénio de Andrade

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

agosto amarga



Não tardará a chegar ao fim 
este agosto que te viu passar com a luz
 a teus pés. Somos eternos, dizias. 
Eu pensava antes na danação
 da alma ao faltar-lhe o alimento 
que lhe trazias. Agora a cidade vive
 do peso incomensuravelmente morto
 dos dias sem a tua presença. Deixo 
a mão correr sobre o papel tentando 
captar o eco de uma palavra,
 um sinal de quem em qualquer parte
 cintila, e confia ao vento o segredo 
da nossa tão precária eternidade.







 Eugénio de Andrade

sábado, 8 de dezembro de 2018

terça-feira, 28 de agosto de 2018

amargos




Dormíamos nus 
no interior dos frutos

 É o que temos:
 sono e a estiagem subitamente
 até ao fim.

 Amargos.

 Pela humidade descia-se
 às fontes - lembro-me. 
Dos lábios.







 Eugénio de Andrade
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

livros de poesia



Não tardará a chegar ao fim
 este agosto que te viu passar 
 com a luz a teus pés. 
 Somos eternos, dizias.
 Eu pensava antes na danação da alma
 ao faltar-lhe o alimento que lhe trazias.
 Agora a cidade
 vive do peso incomensuravelmente morto
 dos dias sem a tua presença. 
 Deixo a mão correr sobre o papel 
 tentanto captar o eco de uma palavra, um sinal, 
 e quem em qualquer parte cintila,
 e confia ao vento o segredo da nossa tão precária eternidade.






 Eugénio de Andrade

domingo, 24 de junho de 2018

domingo, 4 de março de 2018




Não, não é ainda a inquieta
 luz de março
 à proa de um sorriso, 
nem a gloriosa ascensão do trigo,a seda de uma andorinha roçando 
o ombro nu,
 o pequeno e solitário rio adormecido
 na garganta; não, nem o cheiro acidulado e bom
 do corpo depois do amor, 
pelas ruas a caminho do mar, 
ou o despenhado silêncio
 da pequena praça,
 como um barco, o sorriso à proa;

 não, é só um olhar. 







 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018




Devias estar aqui rente aos meus lábios
 para dividir contigo esta amargura
 dos meus dias partidos um a um








 Eugénio de Andrade

terça-feira, 9 de janeiro de 2018




Janeiro não é mês para morrer, 
nem o mar nem a luz são
 propícios - parece que vai nevar 
Mesmo assim, tu decidiste 
que seria a última, esta tarde: 
vias uma criança escalar o muro
 do verão, e sorrias - há muito tempo. 






 Eugénio de Andrade

quarta-feira, 15 de novembro de 2017




Da alma só sei o que sabe o corpo:
 onde a esperança e a graça
 aspiram ao ardor
 da chama é a morada do homem. 
 Vê como ardem as maçãs
 na frágil luz de Inverno. 
 Uma casa devia ser 
 assim: brilhar ao crepúsculo
 sem usura nem vileza
 com as maçãs por companhia. 
 Assim: limpa, madura. 






 Eugénio de Andrade

domingo, 5 de novembro de 2017

melancolias




Foto de Sónia Silva


O Outono vem vindo, chegam melancolias,
 cavam fundo no corpo, 
 instalam-se nas fendas; às vezes 
 por aí ficam com a chuva
 apodrecendo;
 ou então deixam marcas, as putas, 
 difíceis de apagar, de tão negras,
 duras. 






 Eugénio de Andrade

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

nuvens




Foto de Lurdes Júdice


 É tão bom ser nuvem, 
 ter um corpo leve, 
 e passar, passar.
 Leva-me contigo. 
 Quero ver Granada. 
 Quero ver o mar.
  Granada é longe, 
 o mar é distante, 
 não podes voar.
 Para que te serve 
 ser nuvem, se não
 me podes levar? 

Serve para te ver.
 E passar, passar







Eugénio de Andrade

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

casa




Quando o ser da luz for
 o ser da palavra, 
 no seu centro arder
 e subir com a chama
 (ou baixar à água)
 então estarei em casa. 






 Eugénio de Andrade

sábado, 19 de agosto de 2017

o tempo em que festejavam o dia dos meus anos




Não se aprende grande coisa com a idade. 
Talvez a ser mais simples,
 a escrever com menos adjectivos.
 Demoro-me a escutar um rumor.
 Pode ser o prelúdio tímido ainda
 do cantar de um pássaro, uma gota 
de água na torneira mal fechada, 
a anunciação do tão amado
 aroma dos primeiros lilazes. 
Seja o que for, é o que me retém 
aqui, me sustenta, impede de ser 
uma qualquer vibração da cal, 
simples acorde solar, um nó
 de luz negra prestes a explodir. 






 Eugénio de Andrade
(Foto de Natalia Drepina)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017




Concentro os olhos no mais precário
 lugar do teu corpo: morre-se 
 em Agosto com as aves: 
 de solidão. 

 Neste instante sou imortal: 
 tenho os teus braços em redor
 do corpo todo: 
 as areias escaldam: é meio-dia. 

 Do teu peito avista-se o mar
 caindo a prumo:
 morre-se em Agosto na tua boca: 
 com as aves







 Eugénio de Andrade