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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

palavras gastas




Envio-te
 mensagens telepáticas que repito sete vezes seguidas. 
Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto tempo, 
como: Amo-te muito. Meu amor, que saudades, vem depressa. 
E outras ainda mais gastas que digo todos os dias,
 como : Foda-se esta merda 






 Inês Lourenço

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pela última vez



Nunca se sabe
 quando estamos num lugar
 pela última vez. Numa casa
 que vai ser demolida, numa sala
 provisória que vai encerrar, num velho
 café que mudará de ramo, como
 página virada jamais reaberta, como 
canção demasiado gasta, como
 abraço tornado irrepetível, numa
 porta a que não voltaremos.




 Inês Lourenço

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Coisas que nunca


Há coisas que nunca tivemos em crianças e perdem o valor para sempre. Aquele sempre dos primeiros dez anos, onde o tempo, as pessoas, as coisas parecem enormes e indestrutíveis.
Disfarçar-se de relâmpago ou de outras coisas impossíveis, comer todos os chocolates, ter uma bicicleta igual à do estúpido do vizinho, fazer as coisas que os adultos escondem atrás da porta dos quartos, retribuir a bofetada aos nossos legítimos superiores, querer morder com justa causa tanta gente no mundo e só poder no escuro morder uma almofada.


Inês Lourenço

sábado, 10 de setembro de 2011

Roteiro para um paraíso privado

Deitar-se alguma vez nos sulcos do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico o cheiro das nossas mantas.
Não lavar os dentes e sobretudo esquecer de baixar as persianas.
Coleccionar pontas sucessivas de cigarros, jornais de muitos ontens e rimas de livros lidos só três paginas.
Não endireitar a curva daquele candeeiro, deixar as gavetas abertas com colírios, comprimidos e roupas à vista.
Amontoar em cima da cómoda brincos ímpares, perfumes sem tampa,
pequenos espelhos quebrados, alfinetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos e a roupa de todas as horas


Inês Lourenço