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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

nada


Que aconteceu, voltas a perguntar-me. 
 Nada, volto a responder-te. A resposta que tenho já te havia dado. 
 O resto, que me perdi das palavras nestes últimos dias, 
 que me perdi de mim e não sei por que passos poderei regressar,
 como explicar-te? 






 Jorge Roque

sábado, 12 de julho de 2014

Cumpro-me no que sou



Suicido-me devagar a pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão. Bem sei que podia comprar sopa, já que não a faço. Podia também comprar um microondas, serviria para aquecer a sopa e ainda preparar refeições pré-cozinhadas. Não se trataria de um grande passo, do ponto de vista do destino da humanidade, mas significaria ao menos comida quente no prato. Podia até casar-me, segundo o juízo optimista da minha mãe, e desse modo adquirir tudo isto num pacote bonificado, diminuindo o custo de cada um dos artigos individualmente considerados. Está tudo certo, por conseguinte, eu errado. Determinam os factos, no entanto, que o casamento é para mim um caso semelhante ao do microondas, ou seja, uma circunstância de que não suporto o ruído e, não serei eu que o anuncie, se há coisa que ninguém pode é ser aquele que não é (assim se desmorona um admirável plano, ignorando as esperanças da minha mãe). Resta acrescentar que nada há de heróico no meu gesto, nem eu me ocupo já de o iludir. É a mão que tenho (e a que não tenho). O prato que recuso (e o que aceito). Pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão, 
cumpro-me no que sou: um exemplar falhado da espécie. 





 Jorge Roque

terça-feira, 4 de março de 2014

Talvez um dia use esse batom vermelho



Quando me levanto, não sei se estou doente ou se é só a solidão. Foram estas as tuas palavras ao balcão, entre as pessoas que entravam e saíam, e nenhuma reparava que havia alguém ali a gritar uma dor que de tão funda não se ouvia. Mal te conheço, mas depois disto é como se nos conhecessemos. Talvez um dia use esse batom vermelho, esses brincos dourados de metal barato a coroar o penteado de cabeleireiro, e no sorriso a mesma largura triste de uma distância que jamais se alcançará (será ela que nos une uma vez mais). Antes disso, vou falar-te das minhas manhãs quando me levanto. Um peso no corpo, uma morte no olhar, corredor estreito por onde os passos avançam em direcção ao copo onde dissolvo a vitamina C em água. Logo o cigarro, a primeira baforada, como se uma esperança, embora uma esperança de nada. Seguir para o banho, copo e cigarro, o espelho em frente, cercado por azulejos brancos macabros. O resto já sabes, não preciso dizê-lo. 
Somos assim dois, eu e tu. Guarda segredo. 




 Jorge Roque

segunda-feira, 11 de março de 2013

Quero dizer


A poesia é um instrumento, quero dizer.
Uma chave de abrir a porta.
Uma escada de subir a nós.
  Uma altura, por fim, de descobrir que todo o chão é de cair.



Jorge Roque

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Das minhas manhãs


(...)
Vou falar-te das minhas manhãs quando me levanto. Um peso no corpo, uma morte no olhar, corredor estreito por onde os passos avançam em direcção ao copo onde dissolvo a vitamina C em água. Logo o cigarro, a primeira baforada, como se uma esperança, embora uma esperança de nada. Seguir para o banho, copo e cigarro, o espelho em frente, cercado por azulejos brancos macabros. O resto já sabes, não preciso dizê-lo. Somos assim dois, eu e tu.
Guarda segredo.

Jorge Roque

sábado, 31 de março de 2012

Tarde demais


...
Faz-me uma carícia ao de leve, diz-me palavras em voz serena.
Deixa que os meus olhos se fechem, deixa que o negro se esqueça.
Depois sai e fecha a porta sem ruído.

Jorge Roque (Broto Sofro)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma ferida aberta


Trago uma ferida aberta na cabeça, outra mais abaixo onde não se vê. Desta última não falarei. Caminho pelas ruas e trago uma ferida aberta na cabeça. A ferida é maior do que o tamanho que tem. A ferida é o sítio onde todo o meu corpo germina. Flor de mácula, for de infâmia. Caminho entre as ruas e trago essa flor aberta na cabeça.


Jorge Roque

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Para quê ?


Fumo um cigarro nu a teu lado, cabelo em desalinho, corpo amarrotado, lençóis pisados ao fundo da cama, peças de roupa espalhadas no chão, fome alucinada que tudo devorou. não quero partir, não quero ficar, tão pouco tenho pressa de o perguntar. estou bem onde estou, junto do teu corpo, copos manchados de cuspo e dedadas. tinha-te dito à chegada, enquanto te enchia o copo: separa-nos uma e um quarto de luís pato (unidade de medida astronómica). à nossa. disse-te e batemos os copos. digo-te agora: separa-nos cada passo de cada dia percorrido (unidade de medida terrestre). o caminho a todo o comprimento e largura. máscaras, disfarces, medo, meias palavras.

para quê vestir-me?




Jorge Roque

domingo, 29 de janeiro de 2012

Rigoroso vernáculo


Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.


Jorge Roque

domingo, 15 de janeiro de 2012

Este riso


Às vezes assusta-me este novo riso que tenho. Não que antes não risse, mas exactamente porque antes ria e este riso não ri. Apenas revérbero negro do que seria um sorriso se alguma alegria o tomasse. Só que não há alegria e o riso perpetua-se negro sob o céu pesado do olhar de outros que se perguntam e com razão: estará a ficar louco? Por mim nunca me coloquei a questão (é o olhar deles que me assusta). Nos dias a questão foi sempre outra: como sobreviver a esta dor sem pausa? Como atravessar este grito sem fim? É para ela que o riso é solução


Jorge Roque

domingo, 20 de novembro de 2011

Xeque mate


Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos mal calculados. Ouvem-se no andar de baixo a embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, principalmente quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar.


Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.



Jorge Roque

domingo, 30 de outubro de 2011

E agora ?




Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço (que embora não pareça faz parte do sorriso).

E agora já me entendes?

E agora ainda me queres?

Jorge Roque