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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

sábado, 20 de outubro de 2018

as cicatrizes do coração permanecem



A esta hora
 na infância neva, 
 e alguém me leva
 pela mão. 
 Quem me trouxe de tão
 longe senta-se agora
 à minha cabeceira
 pegando-me na mão. 
 Senhor, que ao menos 
 a infância permaneça, 
 o espírito da neve 
 desfolhando-se no chão! 
 O médico disse que 
 as cicatrizes 
 do coração
 permanecem.







 Manuel António Pina
 (Foto de Nishe)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

como poderíamos não nos ter perdido?




Não valia a pena esperar, ninguém viria 
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
 estávamos sós e essa solidão éramos nós;
 e era indiferente sabê-lo ou não,
 ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia: 
o grito era a própria indiferença. 
 Presente, apenas presente;
 a memória, presente, 
a esperança, presente.
 E, no entanto, houvera um tempo
 em que tínhamos sido talvez felizes,
 quando não nos dizia respeito a felicidade, 
 e em que tínhamos estado perto 
de alguma coisa maior que nós 
ou do nosso exacto tamanho. 
 Como um animal devorando-se
 por dentro a si mesmo,
 consumira-se, porém,
 o pouco que nos pertencera, os dias e as noites, 
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
 palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca. 
 Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse, 
nenhuma renúncia que nos prendesse
 ou nos libertasse, nenhuma compaixão que
 nos devolvesse o ser
 ou o mesmo, 
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.
 Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
 nenhumas pálpebras se abriam, 
como poderíamos não nos ter perdido? 
 Entre 10 elevado a mais infinito
 e 10 elevado a menos infinito, 
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul, 
 sós, 
sem ninguém à escuta, 
nem a nossa própria voz. 






 Manuel António Pina
 (Foto de Cristina Coral)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

dá-me para a melancolia




Só mais um dia, 
um dia luminoso e barulhento
 por mim a dentro, 
um dia bastaria, 
em prosa que fosse. 

 Mas  dá-me para a melancolia
 para a limpeza, para a harmonia,
 impacientam-me as migalhas 
de pão na mesa, as falhas
 da pintura do tecto,
 as vozes das visitas, despropositadas, 
sinto-me sujo como um objecto, 
desapegado, desarrumado. 

 Trocaria bem esse dia
 por um pouco de arrumação
 - no quarto e no coração. 






 Manuel António Pina

sexta-feira, 8 de julho de 2016




Vê se há mensagens 
no gravador de chamadas; 
rega as roseiras; 
as chaves estão
 na mesa do telefone; 
traz o meu 
caderno de apontamentos
 (o de folhas 
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada 
a ninguém, 
o tempo, agora, 
é de poucas palavras, 
e de ainda menos sentido. 






 Manuel António Pina
 (Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 28 de abril de 2016




Regresso devagar ao teu 
 sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
 não é nada comigo. Distraído percorro 
 o caminho familiar da saudade, 
 pequeninas coisas me prendem, 
 uma tarde num café, um livro. Devagar
 te amo e às vezes depressa,
 meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
 regresso devagar a tua casa, 
 compro um livro, entro no
 amor como em casa. 






 Manuel António Pina

segunda-feira, 5 de outubro de 2015




Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado, 
como se fosse pelo lado de dentro? 






Manuel António Pina
 (Foto de Monia Melro)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015




a casa agora é feita d'ângulos agudos,
 de perguntas, de poços descobertos,
 e nós perdemo-nos por dentro d'outros mundos
 por portas que se abriram para dentro. 
 O meu coração repousa 
na cave no meio da minha vida 
e eu vagueio lá fora entre os sentidos. 
Sou eu quem chama, não me ouves bater? 





Manuel António Pina

domingo, 20 de abril de 2014

O terceiro dia



Também eu ceei com os doze naquela ceia 
 em que eles comeram e beberam o décimo terceiro. 
 A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio; 
 e o que inclinou a cabeça no Meu Peito. 
 E traí e fui traído. 
 e duvidei, impacientemente, e descartei-me; 
 e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
 (embora nada daquilo fizesse sentido). 
 Não subi aos céus (nem era caso para isso), 
 mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
 comprei e não paguei, faltei a encontros,
 cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros. 
 Agora, como num filme descolorido, 
 chegou o terceiro dia e nada aconteceu, 
 e tenho medo de não ter sido comigo, 
 de não ter sido comido nem ter sido Eu. 





 Manuel António Pina

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dos dias


Igual aos deuses (com pouco me contento),
de livros e de silêncio me alimento.
 


Manuel António Pina

terça-feira, 7 de maio de 2013

Toma


este é o meu corpo, o que sobe as escadas
  em direcção à tua escuridão...
 


Manuel António Pina

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eram 3 da tarde


Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia,
talvez de um dia em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta(morta como se
estivesses morta!),olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!
 


Manuel António Pina

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Também eu


O gato olha-me
ou o meu olhar olhando-o?
E eu o que vejo senão
a mesma Única solidão?
Chamo-o pelo nome,
pela oposição.
Em vão:
sou eu quem responde.
Virou-se e saltou
para o parapeito
real e perfeito,
sem nome e sem corpo.
(Também eu estou,
como ele, morto).


Manuel António Pina

sábado, 27 de outubro de 2012

Poemas perfeitos em noites escuras


(...)
Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz e desça
sobre nós a tua escuridão,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes,
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos para sempre o rasto
da nossa vida
e que repousemos enfim
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.


Manuel António Pina

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

Era um homem que gostava de palavras


(...)
Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois, já o
jantar tinha arrefecido.
E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e cubro a cabeça com os lençóis.


Manuel António Pina

terça-feira, 27 de março de 2012

Das manhãs

...
E aqueles que me assaltam à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto
....


Manuel António Pina

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Faltas


...
De súbito faltas-me debaixo dos pés
e noutros lugares


De ti é possível dizer
que te ausentaste para parte incerta
deixando tudo no teu lugar
...
De súbito faltam-me as palavras




Manuel António Pina