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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

nem sequer um poema



É nas linhas das mãos que os deuses escrevem
 os mais belos romances. Nas nossas porém somente 
 elaboraram um divertimento um esboço um rascunho
 nem sequer literatura.






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

sexta feira da paixão



Hoje podes deitar-te na minha cama
 e contar-me mentiras 






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

por ter ficado




nada mudou jamais - e o meu passado é 
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
 de me deixares é o que o espelho me devolve no
 presente 







 Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 21 de junho de 2017

esse nome




Encontrei-o no bolso do primeiro 
casaco deste verão. Frio. Toquei-lhe
 o corpo das letras devagar como se
 fosse mão que me aguardasse. Frio. 

 Trouxe-o aos olhos com desejos de
 lembrar-me que tarde e de que verão; 
li com os lábios esse nome que talvez 

 me livrasse da doença, tentei escutá-lo
 numa voz que me estendesse os dedos. 
Frio, frio. 







 Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 16 de junho de 2017




Já não sei o que disse e o que disseste:
 o verão desarruma os sentimentos. 








 Maria do Rosário Pedreira

domingo, 18 de dezembro de 2016




O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera 
de olhos acesos as histórias que nos contas. 
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça 
o pêlo, cúmplice, quando pressente que regressas. 

 Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens 
e ofereço-te o silêncio de um pequeno quarto recuado,
 as sombras das traseiras na minha pele, o tempo 
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar 
 a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
 e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato ou eu. 

 Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
 fica. Eu fecho as portadas devagar. O gato mia baixo
 à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros 
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu. 






 Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 18 de agosto de 2016




E há memórias
 deste amor? A voz sem as palavras, um livro lido  
às escuras, um bilhete cifrado deixado num hotel,  
um velho calendário cheio de desencontros? Não, 
 não há memória deste amor. 






 Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 19 de abril de 2016




embora 
 saiba que foi o teu silêncio que me deixou, tenho
 pavor de me esquecer da tua voz; e, quando tento 
recordar um instante feito só de palavras ditas
 ao ouvido, já não encontro nada - nada de nada;
 e é como se tivesses morrido dentro do meu corpo. 






 Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 4 de abril de 2016




Tu chegas e a minha pele chama-te 
 sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor 
 dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo 
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
 todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica 
 apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície 
 lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram. 






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Anna O)

domingo, 28 de fevereiro de 2016




O meu corpo gela à míngua dos teus dedos 






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Dois bilhetes para um filme de amor que não viste comigo




Lê , são estes os nomes das coisas que
 deixaste – eu, livros, o teu perfume 
espalhado pelo quarto; sonhos pela
 metade e dor em dobro, beijos por
 todo o corpo como cortes profundos 
que nunca vão sarar; e livros, saudade, 
a chave de uma casa que nunca foi a 
nossa, um roupão de flanela azul que
 tenho vestido enquanto faço esta lista: 
 livros, risos que não consigo arrumar, 
e raiva – um vaso de orquídeas que 
amavas tanto sem eu saber porquê e 
que talvez por isso não voltei a regar; e
 livros, a cama desfeita por tantos dias, 
 uma carta sobre a tua almofada e tanto
 desgosto, tanta solidão; e numa gaveta 
dois bilhetes para um filme de amor que
 não viste comigo, e mais livros, e também 
uma camisa desbotada com que durmo
 de noite para estar mais perto de ti; e, por
 todo o lado, livros, tantos livros, tantas
 palavras que nunca me disseste antes da 
carta que escreveste nessa manhã, e eu, 
 eu que ainda acredito que vais voltar, que 
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros 






 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Ezgi Polat)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015




Já não sei o que disse e o que disseste: 
 o verão desarruma os sentimentos. 






 Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 26 de junho de 2015




Quantas pessoas caminham na
 minha direcção? Quantas me 
descobrem por entre a multidão
 e pousam os seus olhos inteiros 
nos meus olhos? Podia acreditar 
 que entre elas está o homem que
 trocaria comigo os dedos sobre a 
mesa, uma palavra que fosse gomo 
de laranja e poema, o corpo aceso
 sob o lençol cansado de mais um 
dia. Mas quantos destes rostos de 
pedra que me cercam escondem o 
 seu pelas ruas desta tarde? Quantos 
nomes de acaso e de silêncio terei
 eu de escutar para descobrir o seu 
 no meu ouvido? Quantas pessoas
 caminham contra mim? 






 Maria Do Rosário Pedreira

quinta-feira, 11 de junho de 2015





Guardava alguns silêncios e também as coisas
 que não dissera por acaso. Guardava agora também
 esses acasos, brancos recados entre as palavras
 que lhe sobravam nas gavetas. E ainda assim guardaria
 para sempre essas palavras, ou a imagem de lábios a 
dizê-las ― um rosto ainda sem ser triste lembrando o verão 
 Teria aguardado esse verão, o cheiro quente dos morangos
 à beira os dedos. E tê-lo-ia sobretudo guardado,
 como guardava agora, sem nunca o ter ouvido, o som
 das espigas, na planície, à passagem do vento. 
 Mas agora só podia aguardar a passagem do tempo 
sem palavras; ou um vento de feição, um acaso
 que tudo justificasse. E no silêncio em que se ia guardando 
buscava apenas um lugar mais sereno para as memórias. 





 Maria do Rosário Pedreira
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015




Esta noite o vento ceifa os bosques e
 uma raiva sacode a terra. Se a voz
 do mar chamasse pelas velas, os estreitos
 aguardariam um naufrágio. E se dissesses
 o meu nome eu morreria de amor. 
Devo, por isso, afastar-me de ti – não 
por ter medo de morrer (que é de já não
 o ter que tenho medo), mas porque a chuva 
que devora as esquinas é a única canção 
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio. 





Maria do Rosário Pedreira

sábado, 28 de dezembro de 2013

Esta noite


Hoje podes deitar-te na minha cama e contar-me mentiras - dizer, não sei, que o amor tem a forma da minha mão ou que os meus beijos são perguntas que não queres que ninguém te faça senão eu; que as flores bordadas na dobra do meu lençol são de jardins perfeitos que antes só existiam nos teus sonhos; e que na curva dos meus braços as horas são mais pequenas do que uma voz que no escuro se apagasse. Hoje podes rasgar cidades no mapa do meu corpo e inventar que descobriste um continente novo - uma pátria solar onde gostavas de morrer e ter nascido. Eu não me importo com nada do que me digas esta noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o pólen excessivo das corolas, o seu vermelho impossível. Mas amanhã, antes de partires, não digas nada, não me beijes nas costas do meu sono. Leva-me contigo para sempre ou deixa-me dormir - eu não quero ser apenas um nome deitado entre outros nomes.





Maria do Rosário Pedreira

domingo, 29 de setembro de 2013

Se alguém me perguntar


Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi verdade - que não amei ninguém depois de ti nem o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio que não fosse a memória de um instante junto do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste por não suportar as palavras maiores longe da tua boca; e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa, acreditando que, se não me alimentasse, acabaria por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura. Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti, bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente do que tinham e os vi partir desesperados a meio da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal, também eles não existiam para além de ti; e que no dia seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida. Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono. E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas, pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.




Maria do Rosário Pedreira