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sábado, 17 de novembro de 2018

amar



Não é de amor que careço. 
 Sofro apenas 
 da memória de ter sido amado. 

 O que mais me dói,
 porém,
 é a condenação 
 de um verbo sem futuro. 
AMAR






 Mia Couto
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

cartas de amor



E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas
 que me despia para ler as tuas cartas. 
Só nua eu te podia ler. 





 Mia Couto
(Foto de Laura Makabresku)

domingo, 19 de agosto de 2018

a idade é isto



Esse que em mim envelhece
 assomou ao espelho
 a tentar mostrar que sou eu. 
 Os outros de mim, 
fingindo desconhecer a imagem, 
deixaram-me a sós, perplexo, 
com meu súbito reflexo. 

 A idade é isto: o peso da luz 
com que nos vemos. 







 Mia Couto

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016




Magoa-me a saudade 
 do tempo em que te habitava
 como o sal ocupa o mar 






 Mia Couto
 (Foto de Ezgi Polat)

segunda-feira, 6 de julho de 2015




Pergunta-me 
  se eras tu 
 quem eu via 
 na infinita dispersão do meu ser 
 se eras tu
 que reunias pedaços do meu poema 
 reconstruindo
 a folha rasgada 
 na minha mão descrente 






 Mia Couto
(Foto de Nishe)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Emboscada



Abro a casa 
 para o teu silêncio 
Mas não tenho leito 
Para o teu cansaço 




 Mia couto

terça-feira, 28 de maio de 2013

Afinador de silêncios



Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.



Mia Couto

domingo, 24 de março de 2013

Em vão


Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só meus olhos
se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?





Mia Couto

sábado, 17 de setembro de 2011

Tempo




Nunca prestei grande atenção ao calendário, nunca comemorei datas.

Tenho para mim um relógio íntimo que marca outro compasso nisso que chamamos de tempo.





Mia Couto (Pensageiro Frequente)

sábado, 26 de março de 2011

Era assim que dizias




És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.


E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?


E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.


E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?


E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.
Era assim que dizias.

TU eras um poeta
Eu era a tua poesia




Mia Couto

terça-feira, 13 de julho de 2010

Quem sabe

Não, não aprenderei nunca
a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?





Mia Couto

terça-feira, 18 de maio de 2010

Habitar-te


Não ter morada
Habitar
Como um beijo
Entre os lábios
Fingir-se ausente
E suspirar (o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo e beber
toda a ternura para refazer
o rosto
em que desapareces
o abraço em que desobedeces




Mia Couto




terça-feira, 2 de março de 2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

De novo

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono



Mia Couto

sábado, 28 de novembro de 2009

Qualquer coisa

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer




Mia Couto

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A intenção de mim

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra
meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me
Depois, não
me ensines a estrada.
A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.




Mia Couto

segunda-feira, 2 de novembro de 2009