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sábado, 11 de agosto de 2018

sábado à tarde



Terraços inúteis, varandas das traseiras, arrecadações, escadas de caracol, marquises desbotadas, antigas estufas, barracas, vasos partidos, paredes abertas, telhas, ferro-velho, andares vazios, degraus sem uso, o fosso do elevador, fechaduras de portões, gatos, cadeiras, um sol sem préstimo, ervas daninhas, um triciclo, humidade, silêncio, azulejos, sábado à tarde e o meu corpo. 







 Pedro Mexia

sábado, 30 de abril de 2016

quarta-feira, 26 de agosto de 2015




Tenho fotografias que provam
 que nunca exististe






 Pedro Mexia
 (Foto de René Groebli)

quinta-feira, 2 de abril de 2015




Cinema fechado, melancólico 
o arrumador, portões
 a cadeado, ruído abafado de matinés, 
fria a rua, de lado a lado, a cena 
em cinemascope restaurado 
mas a memória no negrume horizontal, 
premeditado, das barras. 





Pedro Mexia

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015




As pessoas dão demasiada importância à primeira vez. 
 E a última vez? 
 Ninguém pergunta pela última vez.
 A última. 
A última de todas.
 A última das últimas. 
 A última depois da qual não há mais nenhuma. 





 Pedro Mexia
 (Foto de Nishe)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Olhar para trás


A mulher de lot (gn, 19) olhou para trás, para ver uma última vez a cidade destruída.
e assim se tornou numa estátua de sal.
é isso que acontece quando olhamos para o passado:
ficamos petrificados.
 mesmo que o passado seja uma cidade de onde acabámos de sair.

Pedro Mexia

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A infância


Era a minha altura. Um livro em cima da cabeça marcava o lugar que um lápis semestralmente riscava na parede da cozinha. A única sabedoria dos ossos, crescerem como a teia sólida de um propósito e a anatomia mais transparente. Centímetro a centímetro espigava o corpo imaginário, essa contabilidade que era assim, íntima, pictórica, como uma cena burguesa. Traço a traço a parede da cozinha tornou-se rupestre, a infância uma ternura assustadora. Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e mais pequeno


Pedro Mexia

quinta-feira, 10 de maio de 2012

27 silêncios


tinhas razão, toda a razão, razão antes de tempo, razão tantos anos antes. viste numa fraqueza um desastre, escolheste os adjectivos que se iam tornar substantivos, e disseste que a vida não estava do meu lado. e foi então que me apresentaste a morte, apenas para que eu falasse com alguém enquanto tu viravas costas.


Pedro Mexia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Como a pele


A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

Pedro Mexia

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Quem escreve


Os meus demónios tratam-me pelo nome.
Os meus demónios são legião e não desertam.
Os meus demónios obedecem a todas as ordens e a nenhuma vontade.
Os meus demónios começaram por ser meus por afinidade e agora são parentes de sangue.
Os meus demónios é que escrevem os poemas.




PEDRO MEXIA

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010