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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

é verão



Sonho contigo aos beijos
 entre as minhas pernas, 
acordo, não acordo, quase não durmo, 
abro as persianas,
 fervo água,
faço um chá escuro como café, 
uma torrada com manteiga, 
de olhos fechados, 
queimo a língua,
 arde menos do que os meus pensamentos, 
de olhos fechados, 
como a torrada como se fosse um figo, 
enfio o Verão na boca, 
foste o meu Verão, 
só tive um Verão,
 de olhos fechados não chove, 
de olhos fechados é Verão 







 Raquel Serejo Martins

sábado, 27 de abril de 2019

diário



Faço a cama todos os dias, tento preservar a ordem do meu mundo.
 Lavo pratos, copos, talheres, quero dizer, enfio-os na máquina. 
Mantenho limpos os vidros das janelas.
 Lavo o corpo, os dentes, a roupa, do corpo e da cama, quero dizer, enfio-a na máquina, há máquinas para tudo. 
Não moro sozinha, moro com dois gatos e vaso nenhum com planta 
Compro os víveres no supermercado. 
Chego a sexta-feira com uma garrafa de vodka e duas maçãs mirradas no frigorífico. 
Já plantei couves, alfaces, árvores de fruto. 
Já escrevi cartas ridículas, tenho esta estranha mania de ser sincera. 
Tenho vergonha de erros ortográficos. 
Valorizo a etimologia. 
Tento perceber o oposto de todas as coisas, mesmo da bondade. 
Não tenho a virtude da paciência, nem sei se é virtude. 
Sou feliz só porque não trabalho num talho. 
Não como outros animais. 
Evito ter contas por pagar. 
Ando a pé mesmo quando chove. 
Preciso urgentemente de comprar um guarda-chuva novo. 
Fumo, o que não é qualidade. 
Não prescindo da mentira, o que nem sempre é defeito. 
Vou ao teatro e respiro. 
Leio os meus poetas e sufoco.
 Evito a televisão. 
Não sei o que fazer com a minha solidão.
 Sei fazer chá, o que, convenhamos, não é difícil, e compota de abóbora. 
Não me lembro da última vez que ri até às lágrimas. 
Nunca fiz uma revolução. 
Agora sei que fui feliz em Florença.
 Lembro-me de várias as vezes que fiquei de coração partido e como diz a canção: o amor só é bom se doer. 
Às vezes tenho vontade de abraçar desconhecidos.
 Garimpo a beleza das coisas, os pormenores insignificantes da vida. 
Comovo-me com a ferrugem na ferragem da varanda.
 Não tenho varanda e penso na distância entre o dia de hoje e a minha morte. 
E sei que a vida apesar de breve cansa. 






 Raquel Serejo Martins
 (Foto de Monia Melro)

terça-feira, 19 de junho de 2018

não vais voltar




Não vais voltar a perguntar-me
 se já estão em flor os jacarandás cinemateca
 que filme vi Terça-feira, 
Terça-feira é dia de cinema por tua causa,
 como estão as minhas contas, a minha hipoteca,
se já comi cerejas, e quem ando a comer, 
perguntavas assim, atrevido,
 e não atrevido, à vontade, 
porque querias saber se cuspi o caroço. 
Não vais voltar a perguntar-me 
do primeiro mergulho de Verão, 
dos poetas que ando a ler, 
das pessoas que matei no local onde trabalho,
 do humor e do amor dos meus gatos, 
quem foi a última pessoa que abracei, 
sabias da extrema importância dos abraços. 
Não vais voltar.







 Raquel Serejo Martins

domingo, 11 de fevereiro de 2018




Quando o teu coração parou de bater
 o meu coração não parou de bater, 
o que é absolutamente descabido de sentido, 
talvez por isso, desde então, ando perdida.






 Raquel Serejo Martins

terça-feira, 4 de abril de 2017




Deixei os restos do nosso amor
 num saco de plástico
 no armário debaixo do lava-loiça, 
não cabiam no caixote do lixo. 
E quando levares o lixo,
 presta atenção,
 não é para caixote azul, verde ou amarelo,
 é para o cinzento, lixo doméstico comum, 
indiferenciado, o nosso amor acabado, 
e o carro passa às segundas, quartas e sextas. 






 Raquel Serejo Martins

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017




Agora que tens uma casa cheia de gatos,
 um armário cheio de vestidos 
outro cheio de sapatos,
 uma caixa cheia de jóias brilhantes e coloridas
 e outra cheia de comprimidos também brilhantes e coloridos. 

 Depois de uma vida cheia de cupidos,
 pergunto se tiveste um vida cheia, 
a quantos chamaste meu amor, 
querendo dizer “meu”, dizer “amor”, 
se tens o coração cheio ou vazio em dor. 








Raquel Serejo Martins

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

eu o resto




Dividendo divisor quociente e resto
 eu o resto
 o que de nós resta 
 a casa vazia desarrumada e suja de fim de festa
 eu como um animal doméstico perdido na floresta
 o meu respirar cheio de arestas
 e o mundo uma besta
 a respirar baixinho
 um barulho de vento e folhas
 mesmo se janelas e portas fechadas 
 de olhos postos em mim porque sempre com fome 
 uma fome do tamanho do mundo 
 e já se pôs o sol já começa noite. 







 Raquel Serejo Martins
 (Foto de Natalia Drepina)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017




Não me movo, 
quase não respiro, 
tento não existir, 
estou sem estar, 
sou paisagem, 
sou o nada dentro de tudo, 
sou um peixe a boiar no escuro, 
sou um pedaço de céu, 
uma nuvem, uma árvore, 
um agapanto em pranto,
 uma planta a secar num vaso, 
carente de água e de gestos de ternura. 







 Raquel Serejo Martins
(Foto de Katia Chausheva)

sábado, 14 de janeiro de 2017




Chove em Santander, 
oiço-te ao telefone dizer que o trânsito 
não te deixou apanhar o avião,
tenho o quarto de hotel todo para mim,
 tenho a janela em frente do jardim, 
tenho todo o fim-de-semana para mim,
 tenho um ramo de tulipas encarnadas para mim, 
tenho os lábios pintados de carmim, 
tenho dentro do peito a impensada certeza do nosso fim, 
tenho um mini-bar com garrafinhas de gin, 
com pacotinhos de amendoim, 
tudo tão inho, tão aí flores do verde pinho, 
e chove em Santander, 
avisaram que ia chover Sábado e Domingo, 
seria um pleonasmo chorar.





 Raquel Serejo Martins

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016




o relógio, o chefe, os sapatos, as gravatas o aspirador, o fogão, o mecânico de automóveis, o transito, a tv, o sofá, o café, o tabaco, as chuvas, as luas, as chaves, as portas, a rede, a sede, o jardim, o gato, o aquário onde demasiados morrem afogados para lá da linha do equador. Então no limite da lucidez ou talvez da inconsciência, as palavras transformam - se em interrogações, o que foi feito de nós. Onde está a pessoa que eu sonhei, que eu queria ser, ou simplesmente o que eu conhecia! Chamam inconstantes aos que fazem demasiadas perguntas, e é solitária a procura das respostas






 Raquel Serejo Martins