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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

o sangue a ranger nas curvas apertadas do coração



Como tu me dóis, tenho alguma natural tendência para dizer - ou pelo menos para pensar, ou pelo menos para sentir - como tu me dóis. Porém, dores é aquilo que o nosso corpo melhor sabe e é com elas e é por elas que vai aqui e vai além - ou simplesmente fica onde já estava, na plenitude de não haver mais nada. Quando o amor surgiu - difícil dizer quando foi, acordei e estava no meio do mar, sem terra à vista; saudades de terra?, nem um bocadinho - fosse lá quando fosse já era de sempre que vinha: tu, o amor, os enganos. Os empenhamentos e os enganos. Quando aconteceu tingi-me de uma dor nova e todas as dores que eu já tinha, tantas e nenhuma e todas as minhas alegrias, parcas alegrias, mudaram de cor, mudaram de voz. Outras as dores, outras as cores, outros também os sons. Até os gritos soam de outra maneira, como que se expandem numa nova ampliação. E tudo o mais que acontece, se é que posso falar de um mais que não sejas tu ainda, é no meio de uma grande paz que acontece - e é da boca do pânico que vem, naturalmente, tão assim naturalmente, podia dizer, como a água vem das fontes ou a chuva cai do céu. Tão prosaica e milagrosamente. Como podem assim coexistir paz e alarme, nunca na vida mo saberei explicar. Como podem mesmo não se distinguir, serem até uma e a mesma coisa? Perguntas que não querem resposta, não há resposta para a dor de ser. A dor maior que é tu existires, a dor maior de alguém se aperceber - e porquê eu - em realidade qual delas a maior. Uma e outra tão sem lugar e sem jeito, uma com a outra se confundindo afinal. Quando dei por mim estava no meio do mar sem terra à vista. Alguém ainda acreditava no conforto que o amor pudesse trazer? Não éramos a esse ponto ingénuos. Amar-te não podia ser senão isso: uma dor. Uma dor em mim e eu nela, uma dor que não mata, um mal-estar de que se não vive. É, apesar de tudo, um lugar, é o meio do mar. É o mais horrível do mar que é o meio. Olha-se em volta e não há nenhum passado que preste, nenhum futuro que meta cobiça. Lugar do amor - asfixia e amor. Que só dá mesmo para respirar, e mal, e para beber, muito. Não álcool, água salgada. Exactamente o meio do mar. Sem outra terra à vista que não, bem a toda a volta, a dor de amar-te. 






Rui Caeiro

quarta-feira, 24 de julho de 2019

o amor é um lugar estranho



De uma página em branco ninguém se livra, ninguém se cura. 
Como de uma história de amor mal acontecida: 
pura e simplesmente não há retorno, não há saída. 
Morre-se, isto é.






 Rui Caeiro

sábado, 6 de julho de 2019

vermes



Nos negros labirintos do interior da terra
 também sonham, sonham com a nossa carne 






 Rui Caeiro
 (Foto de Nishe)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

segunda-feira, 17 de junho de 2019

as curvas apertadas do coração




Cansado de escutar o sangue a ranger nas curvas apertadas do coração acalentas o sonho: 
um barco no mar a afundar-se : sem capitão, sem ratos, sem espavento 
um único tripulante a bordo: tu 






 Rui Caeiro

terça-feira, 2 de abril de 2019

uma história



Dizes adeus ao chegar
 bom dia ao ir embora

 e no breve e longo intervalo
 digamos que a meio da cama

 enregelada e só — a história
 que ninguém há-de contar 







 Rui Caeiro

terça-feira, 9 de outubro de 2018

melancolia



Houve caminhos fora do quarto
 traçados fora da cama, houve 

 Os principais, porém, foram percorridos
 no teu corpo, laboriosamente 






 Rui Caeiro

quarta-feira, 12 de abril de 2017

adiante




No quarto, nem sequer de hóspedes, no quarto 
escuro das arrumações, fui dar com a minha
 vida, e em que lindo estado. No meio de uma
inqualificável tralha, lá estava ela, ao fundo,
 a minha vida, «encore bien que je te trouve!», 
inqualificável tralha, lá estava ela, ao fundo,tão anémica 
que metia dó. Que situação tão constrangedora, 
pensei, sem lho dar a entender. Que posso
 eu fazer por ti que seja não fugir depressa 
daqui ou enfiar-me logo pelo chão abaixo?
 E tu, minha vida, vá, deixa-te ficar, «tant mal 
que bien», e olha que o quarto também não é tão 
mau assim. E desacompanhada não ficas nunca 
(seria aliás difícil, com toda a tralha em volta...) 
e olha que nestas coisas é como no demais, é como
 em certos casamentos: NÃO DEU NÃO DEU, adiante. 






 Rui Caeiro

terça-feira, 26 de julho de 2016




Uma demora lenta nas palavras
 um calor bom na palma das mãos
 uma maneira de gostar das pessoas e das coisas 
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies 
beber aos golinhos o café a ferver
 ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo 
viver viver roçando as coisas ao de leve 
sem poupar o veludo das mãos e do corpo 
sem regatear o amor à flor da pele
 olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
 e saber de um saber obscuro que o calor 
todo o calor é de mais dentro que vem 






 Rui Caeiro
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015




Ainda atacas
 como pode atacar um amor já ido
 lá de vez em quando ainda atacas
 irrompes num súbito alarme
 sacodes-me de alto a baixo 
impiedosa 
mente
 sacodes
 me
 e devagar te afastas
 como um sol a por
 se 






 Rui Caeiro

domingo, 26 de julho de 2015




só a nudez

 para quê bolsos 
onde guardar 
 o amor 
e o cotão 





 Rui Caeiro

domingo, 19 de julho de 2015




Acordar com a cidade na cama 
promessas seios o pino do verão 
Mas não estender o braço, não vá 
o lugar frio ou morno ou vazio 
 dar-nos fatalmente cabo do poema 






 Rui Caeiro

terça-feira, 10 de março de 2015




Dissolver 
lentamente na boca 

 Saborear 
como um aperitivo

 O pânico 





 Rui Caeiro

terça-feira, 15 de julho de 2014

O corpo



Vem um dia em que o corpo não responde
 não acorda não condiz
 não se habitua

 É uma primeira e definitiva recusa: alheio
 não se dá ao trabalho de 
avisar ou despedir-se

 – o corpo
 vem um dia: agora e na hora 
da nossa morte
 ámen 





 Rui Caeiro
 (Foto de Laura Makabresku)