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sexta-feira, 5 de abril de 2019

falto-me



chego a casa e tenho medo de entrar neste silencio que é a tua falta 

 há muito que a tua falta é somente a minha falta
 iluminada pela tua






 Rui Nunes
 (Foto de Nishe)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

é ali




— Vais. 
Mas espera-te o mesmo. De vez em quando, abre-se uma nesga na indiferença do mundo e um freixo torna-se claro, 
uma sebe, uma ponte, um muro, a pena de uma rola, os lábios, uma palavra. Deus. É ali. E eu vou. 
Olhos abertos para a desolação de uma casa no meio de um ermo, de um vento cor de barro. De uma voz. 
E não se abria uma porta, nem se dava um passo. Só a voz tinha princípio e fim. É ali. O braço esticado à minha frente. 
E o dedo indicador, cheio de nódulos, a apontar. 
E os meus olhos. 
Que se lembram.
 Lembram-se de ver







 Rui Nunes
 (Foto de Mariam Sitchinava)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

abandono



sem o teu abandono a terra não seria furtiva, mas um nome completo, sólida como um bater de pés, sem o teu abandono eu não saberia que um abandono corre para trás até à morte, e recomeça todas as noites, todas as manhãs, sem o teu abandono eu não saberia de que abandono falar, com o teu abandono, o abandono é olhar em volta e dizer: isto é um livro, é azul o título deste livro, é de manhã, o campo de jogos está vazio, o círculo de um espelho na fotografia de Nozolino, um prego na parede, a sombra de um pardal a passar no soalho 






 Rui Nunes
 (Foto de Paulo Nozolino)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

às vezes




por vezes a tua cara torna-se nítida e insuportável. outras vezes, esbate-se e com o esbatimento vem-me a resignação de te ter perdido. 
Às vezes esqueço-te. Ou ficas escondido numa casa, num quadro, numa árvore, de onde ressurgirás.
 Um dia olharei o quadro, a casa, a árvore, e lembrar-me-ei de ti. 
Mas cada vez haverá menos sítios onde te esconderes. 







 Rui Nunes
 (Foto de Katia Chausheva

domingo, 14 de janeiro de 2018




nunca lhe aconteceu nada de grande, viveu o que toda a gente viveu. 
Se lhe perguntassem da paixão, responderia espantada que o amor desvia os olhos dos nomes, volta-se para a janela:

 - toda a vida o mesmo céu, este, contra o qual envelheço. 






 Rui Nunes

sábado, 16 de dezembro de 2017




adormeço mergulhado na lama das palavras, 
não são os meus olhos que as desfazem, 
são elas que já nascem desfeitas: 
os meus olhos e as palavras têm o mesmo destino. 







 Rui Nunes
(Foto de Laura Makabresku)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(cortar)




A mulher não pára de correr. Volta para trás e recomeça. 
O medo recomeça um tempo cada vez mais curto que se
 lhe enrola aos pés. E um tempo depois. Um tempo de
 náusea, pronto a apodrecer como tudo o que está acabado 
Tempo de uma frase que há-de contar (cortar) como
 todas as frases. Que há-de resumir. Mas um som? um 
som cria a sua raiz. E único. Interminável. Uma pedra
 a bater






 Rui Nunes
 (Foto de Mariam Sitchinava)

terça-feira, 11 de julho de 2017

o que eu quero




Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver,
 não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, 
nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se me não dizem nada,
 odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, 
o que eu quero é uma voz que me queira, 
 um momento de descanso nessa voz. 






 Rui Nunes
 (Foto de Katia Chausheva)

domingo, 25 de junho de 2017

destroços




Esqueci­-me do teu nome.
 Um nome que se esqueceu é a falta de um nome?
 Um nome é a falta de todos os nomes. 
 Mas um nome que falta, o que é? 








 Rui Nunes

sexta-feira, 23 de junho de 2017

quinta-feira, 4 de maio de 2017




o que fica de todas as perdas: 
 uma lucidez suja






 Rui Nunes
 (Foto de Katia Chausheva)

sábado, 11 de março de 2017




Um corpo é sempre a morte que regressa, 
 mas o teu é o lugar onde a esqueço. 






 Rui Nunes

segunda-feira, 6 de março de 2017




procurar o lugar que se esquiva, habituar-me à contínua fuga do mundo, 
permitir em mim o sítio onde a palavra se apagou, repousar nele como quem encontra a serenidade na desolação, 
perder, perder cada vez mais até ao indizível, não falar, não escrever, para enfim recomeçar: 
a estrada é a espera de um nome. 







 Rui Nunes
(Foto de Laura Makabresku)

domingo, 12 de fevereiro de 2017




Parto de um rosto ou de um corpo que vou destruindo. Sou
 todos os rostos e todos os corpos. Lugar de desarmonia

 - Sou um intervalo. Nunca preenchido 







 Rui Nunes

sábado, 15 de outubro de 2016

sábado, 24 de setembro de 2016




- gritei?
 - não te ouviste?
 - ouvi alguém gritar. 
- eras tu. 






 Rui Nunes
 (Foto de Natalia Drepina)

quinta-feira, 3 de março de 2016




destruí as tuas fotografias: és agora uma lembrança indecisa. 
Ou um murmúrio, um som que prolonga o vazio. 






 Rui Nunes

sábado, 26 de dezembro de 2015




Um caminho tão largo que eu não saiba andar. 
Um caminho alarga. 
Há quem se sente num marco geodésico e diga: 
Deus






 Rui Nunes
 (Foto de Sónia Silva)

sábado, 12 de setembro de 2015




Tenho sono, a dor intensa de um sono que não me adormece. 
 Nele, os vultos quase adquirem rosto, quase são o lugar da confidência.
 Choro o lugar desocupado. 






 Rui Nunes

sábado, 5 de setembro de 2015




Sei hoje que o amor é a necessidade de dar um rosto a determinadas palavras 





 Rui Nunes