terça-feira, 8 de novembro de 2011

Arte de navegar


Não conhece a arte da navegação
quem nunca vogou no ventre de uma mulher,
remou nela, naufragou
e sobreviveu em uma de suas praias.


Cristina Peri Rossi

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Fogo posto




É a labareda da seda sob os dedos transmitida ao corpo todo,
seda extraída ao segredo - tocar e ser tocado,
sentir em si a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga;
e com dedos e sedas manter às labaredas,
entre terror e louvor, a comburente,
combustível composição de tudo:
ser queimado vivo,
ser luminoso.


Herberto Helder

domingo, 6 de novembro de 2011

Asas


Às vezes, sinto como a rosa

que serei um dia, como a asa

que serei um dia;

e envolve-me um perfume, alheio e meu,

meu e de rosa;

e um vaguear me prende, alheio e meu,

meu e de pássaro.

Juan ramón Jimenez





sábado, 5 de novembro de 2011

O meu corpo




O meu corpo, se bem que leve, é um peso que arrasto sem forças para tanto, um peso que me dói, além de me pesar e de me coagir a arrastá-lo. Desejaria não o sentir, como não sinto o ar que respiro, embora esteja envolvida nele e com ele. Queria deslocar o corpo sem esforço, tal como desloco fluidos, cheiros, poeira, quando caminho de qualquer lado para qualquer lado. Queria disponibilizar o corpo, guardá-lo bem fechado numa gaveta secreta e, quando precisasse, ia lá buscá-lo, trazia-o comigo e dizia-lhe: agora quero sentir-te, mostra-me lá como é , dá-me apetites e desejos que eu possa facilmente satisfazer, dá um prazer à alma que te habita...

Fernanda Botelho

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Diz-me




Onde poderei assentar os pés sem que o chão comece a resvalar ?

Al Berto

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Da nudez


São muitos os dias em que os meus bolsos estão vazios.
Nestes dias, não há peça de vestuário que me abrigue da nudez.


Nelson d'Aires