terça-feira, 4 de novembro de 2014

Rusga



Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em
 torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já 
eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora 
em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não
 funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus 
 prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio
 de excomunhão, devolva o seu corpo à indiscrição. Corpo
 no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães
 a flor absurda do prazer. 





 Vasco Gato
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Os dias com vista para a melancolia



Vimos da escuridão e somos luz 
ou nascemos da luz e somos sombra? 




 Teresa Balté
 (Foto de Katia Chausheva)



O outono amadurece nos espelhos




 Eugénio de Andrade
 (Foto de Katia Chausheva)

domingo, 2 de novembro de 2014

Dor



Não sei quantas vezes chorei
 a boneca de papelão
 que se desfez na água 
 quando lhe dei um banho. 
 Eu não sabia que podem ser tão breves
 as coisas que abrigamos no próprio coração. 





 Graça Pires

sábado, 1 de novembro de 2014

O tempo sobre a pele











Este lilás desfolha-se. 
De si mesmo cai
 e oculta a sua antiga sombra. 
Hei-de morrer de coisas assim. 




Alejandra Pizarnik
(Foto laura Makabresku)