quinta-feira, 14 de junho de 2018

a ausência é uma forma do inverno




assim dói uma noite, 
 com esse mesmo inverno de quando tu me faltas, 
com essa mesma neve que me deixou em branco,
 pois de tudo me esqueço 
 se tenho de aprender a recordar-te









Luis Garcia Montero

terça-feira, 12 de junho de 2018

acender a chama recomeçar a luz




Sabes como me fizeste noite? 
e como me obrigas a reaprender devagar
 o comprimento dos dias ? 






Ana Paula Inácio

segunda-feira, 11 de junho de 2018

ao teu amor não lhe perdoes nada




Solitário e furtivo, o homem do ramo
 anda por locais nocturnos à procura de casais. 
Encontrei-o nas ruas ao pé da Rambla
com umas rosas sem cheiro a rosas
 numa noite que não tem cheiro a noite. 
E perdi-me pelas traseiras da vida. 
Uma mulher na sombra que não és tu 
roubou-te os olhos e chora. A cidade
 é uma exacta e monstruosa cópia.
 Como se o Cúpido já estivesse velho,
 passa cuspindo o vendedor de rosas.
 Enquanto se afasta penso: ao teu amor
 não lhe perdoes nada. Nem o seu final. 






Joan Margarit
 (Foto de Anna O)

sábado, 9 de junho de 2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

resgate




de todas as vezes
 decapitada
 tornei a colocá-la
 sobre os ombros
 à cabeça
 que hoje
 deposito ao contrário

 para que não te veja 
quando olhar para trás






 Ana Paula Inácio

quarta-feira, 6 de junho de 2018

a ver se deixa de doer




Demorou dois meses a livrar-se dos livros. 
Dezassete caixotes de cartão, 
um em cada manhã, a caminho do trabalho. 
Abandonava-os no estacionamento. 
Primeiro os livros, depois as estantes,
 prateleira a prateleira, com a decepção de quem 
renuncia a uma fé. 
Deixara de ler. Agora, bastavam-lhe
 alguns minutos no corredor do supermercado. 
Folheava ao acaso, reprimindo a repulsa.
 Tinha deixado de escrever. 
Recusava-se a acrescentar uma palavra que fosse
 à pilha de papel impresso
 que lhe esmagava a carne. Para papel, 
bastava-lhe o do escritório, o peso e a espessura
 do arquivo morto da burocracia.
 Relatório, inventários, estatísticas. 
Com o tempo talvez dos números
 emergisse uma imagem de mundo. 
Alguma coisa em que acreditar. 
Mais tarde, quando lhe ocorria um título,
 dirigia-se à estante, uma prateleira no armário
 da televisão, 
 e não encontrava lá nada.
Voltava para o quarto, mas continuava a senti-los, 
feridos como é possível 
sentir a dor de um membro há muito amputado. 





 Madalena de Castro Campos