Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
sexta-feira, 13 de julho de 2018
quinta-feira, 12 de julho de 2018
entre parênteses
( Ninguém é pouco ou muito para ninguém,
somos a medida certa de quem nos aceita, ama e respeita
Fica quem gosta, abraça quem sente, e cuida quem se importa )
terça-feira, 10 de julho de 2018
maneira de amar
O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 8 de julho de 2018
quinta-feira, 5 de julho de 2018
poema de amor
Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.
Fernando Namora
(Ezgi Polat)
segunda-feira, 2 de julho de 2018
coração desabitado
Ocupas-me metade do coração
um pulmão, uma orelha, um braço, um olho
uma perna, um rim e meio cérebro.
Inutilizas metade de mim,
funciono a meio gás, respiro pouco,
ando desajeitada, penso mal,
canso-me, sou lenta.
Da alma não te basta só metade,
e roubaste-ma toda
Amalia Bautista
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