segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

sou



Estou viva. 
E penso que para além de mim
 não há quem o saiba. 

 Sou por definição inconsciente e
 vinda à mão, uma transparência-mulher
 uma dor não definível que me
 expõe à luz.






 Claudia R Sampaio
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

de repente



Falámos tanto ou tão pouco que de repente o silêncio que se fez foi essa patada no peito de que guardamos a marca quando agora choramos, quando estendemos as mãos carregadas de dedos mortos, sonhámos tanto que mais de uma vez tivemos de matar, que mais de uma vez estoiraram os olhos sob a pólvora das lágrimas e as tuas mãos voaram estilhaçadas, jogámos tanto que para não nos perdermos arriscámos tudo, até tornarmos a morte uma coisa nossa, tão nossa que é ela que anda agora vestida com a nossa pele e os nossos ossos, escorregando pelas paredes de cabeça p'ra baixo ou subindo pelo interior dos bicos, olhando do alto o sangue que ficou no centro, entre os carris, passando de cadafalso em cadafalso com os lábios furados pelas unhas, com a cintura roxa das dentadas da noite, da miséria dos dias. 





 António José Forte

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

pedaços



Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
 cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
 tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
 para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
 inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
 em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
 oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
 é que não sei onde guardei as instruções de montagem. 






 Carlos Alberto Machado
 (Foto de Ezgi Polat)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

não sabe



Diz que não sabe do medo da morte do amor 
 diz que tem medo da morte do amor
 diz que o amor é morte é medo
 diz que a morte é medo é amor
 diz que não sabe 






 Alejandra Pizarnik
(Foto de Ezgi Polat)