quarta-feira, 17 de abril de 2019

instruções para atravessar o deserto



Se duvidas da tua sede, se não te atreves 
 a perguntar-lhe ou a dar-lhe um nome, 
 se só sabes que procuras uma água
 que a sacie e não encontras senão poços,
 e neles ecos que te chamam, bebe. 

 Se a sede ao beber desaparece
 é porque era só sede. Continua a procurar. 

 Mas se cresce em ti quando a sacias, 
 se queres não deixar de ter sede
 e sim continuar a beber dia e noite
 copos de sede, não duvides: 
 podes chamar-lhe amor, continuar sofrendo,
 e saber que não existe quem te guie. 






 Juan Vicente Piqueras

sexta-feira, 12 de abril de 2019

a queda



Je suis tombée 
amoreuse, foi o seu
 primeiro encontro
 com o chão.  

Dessa vez partiu 
em cacos o coração. 
Os ossos só mais tarde, 
um por um, 
contra a terra. 

 C'est fou la vie, 
essa derrocada
 a que apenas resistem
 memória e pássaro, 
em voo picado. 






 Renata Correia Botelho

terça-feira, 9 de abril de 2019

talvez



Gastar por antecipação o tempo da morte, 
consumir o silêncio do futuro 
como uma flor enterrada, 
viver a crédito
 da eternidade imparcial que nos espera,
 pôr entre as manhãs e as tardes
 algo mais digno de fé do que o meio-dia
 e aprender a pôr termo às palavras, 
ainda que apareçam encostadas. 

 Talvez assim a morte dure menos, 
a vida use outras portas 
e não se cansem tanto
 os olhos que nos buscam. 






 Roberto Juarroz

sexta-feira, 5 de abril de 2019

falto-me



chego a casa e tenho medo de entrar neste silencio que é a tua falta 

 há muito que a tua falta é somente a minha falta
 iluminada pela tua






 Rui Nunes
 (Foto de Nishe)

terça-feira, 2 de abril de 2019

uma história



Dizes adeus ao chegar
 bom dia ao ir embora

 e no breve e longo intervalo
 digamos que a meio da cama

 enregelada e só — a história
 que ninguém há-de contar 







 Rui Caeiro