segunda-feira, 18 de novembro de 2019

de ti



Havia meses que não escrevia
 nem um único poema. 
 Vivia com humildade, lendo os jornais,
 pensando no enigma do poder 
 e nas causas da obediência.
 Olhava para os pores-do-sol
 (escarlates, cheios de inquietação),
 escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
 e o silêncio da noite. 
 Via os girassóis a pendurarem
 as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
 passeasse por entre os jardins. 
 No parapeito recolhia-se
 a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
 se escondiam nas curvaturas dos muros. 
 Dava longos passeios,
 sedento duma coisa só:
 dum relâmpago, 
 duma mudança,
 de ti. 






 Adam Zagajewski

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

perdão




Peço-te humildemente, 
o mais humildemente possível, 
perdão
não por te deixar, 
mas por ter ficado tanto tempo. 






 Marguerite Yourcenar
(Foto de Monia Merlo)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sophia



E eu não habito os jardins do teu silêncio 
Porque tu és de todos os ausentes o ausente 






 Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 5 de novembro de 2019

quem nos reclama?



De pouco servimos. Caímos e decaímos, pintamos de branco os muros do sono, regressamos sempre à mesma hora às agruras de uma casa, solitários como as águias e os fantasmas no interior de si mesmos. Quem nos quer? Quem nos reclama? Talvez seja melhor assim. Andamos de aqui para ali, subimos e descemos, arrancamos as urtigas, assustamos as rãs, deixamos que o vento leve os gemidos do nosso outono. 






 José Agostinho Baptista