Luís Miguel Nava
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
a invenção do amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Daniel Filipe
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
só para te dizer

Corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer
e morrer
Al Berto
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
lugares
Tive de fazer parágrafo porque a pergunta pedia-me que te olhasse nos olhos
e sabes que me perco sempre em qualquer dos lugares
onde guardas a ternura
Sandra Costa
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
quase um poema de amor
Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente.
E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras
Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de quarto
Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima
Eu – que mudei de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu
Eu – que mudei de lume, que mudei de medos
Eu – que mudei de planos, de lençóis, de secretária
Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado
Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou,
mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.
Filipa Leal
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
e escreve-te
Isto sim, é um problema,
leio-me
e dou conta
que todo ele,
negado, saqueado da minha mente,
esvaziado do meu sangue,
instalou-se em silêncio
no túnel cárpico da minha mão direita.
E escreve-se.
Valeria Pariso
(Trad. A.M.)
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