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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

abraços desfeitos




É simples a separação. 
Adeus. 
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar contas um ao outro. 
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço. 
Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da remembrança. 
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos. 
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa do correio. Sobra o telefone. 
Tensão - telefone. Experimentada. Sofrida. 
Tensão - telefone. Possibilidade de voz não póstuma. 
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos. 
Sobra o telefone. Mudo. 
Retininte? 
Sobrarão as cartas. Sobra a espera. 
Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória recente: 
 na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos 
 desesperados de separação. 
Sobra a separação. 






Alexandre o'Neill

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Uma coisa em forma de assim




Poderá andar-se metido num amor a contragosto? Claro que sim. Um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre sabe/palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada pode fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco. «Reconquista-me!», diz o objecto desse amor a contragosto, entre mostrando-se e furtando-se logo de seguida. E o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz. Como se chega - e para quê - a uma situação destas? Por muitos caminhos e para muitos fins. Mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. O sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. É mais. Mais sentimento, mais tormento. «Mas que figurões!», dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. É que eles - o sofrente e o que faz sofrer - não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, de fora e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva. De um amor a contragosto dificilmente se sai. É como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo. Talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. Então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer: - Olha do que eu me safei! - O mundo recobrará cor e significado. Quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar este processo de salvação. A Caparica não é longe. 






 Alexandre O'Neill

segunda-feira, 15 de junho de 2015




Ganhámos juntos o que perdemos separados: 
a luz incomparável, esta luz quase louca 
da primavera, esta gaivota 
caída dos ombros da luz, 
e a leve, saborosa tristeza do entardecer, 
como uma carta por abrir, 
uma palavra por dizer 





 Alexandre O'Neill

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dores


Às dores inventadas
Prefere as reais
Doem muito menos
Ou então muito mais




Alexandre O’Neil

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Qualquer coisa

 

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
  oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro




Alexandre O´Neill

terça-feira, 11 de junho de 2013

 

Duas árvores de avanço,
  Uma corrida louca ....
... E o teu coração na minha boca !
 
 

Alexandre O'Neill

terça-feira, 4 de junho de 2013

Que queriam fazer de mim?


Uma palavra, um gemido obsceno,
Uma noite sem nenhuma saída,
Um coração que mal pudesse
Defender-se da morte ,
Uma vírgula trémula de medo
Num requerimento azul, azul,
Uma noite passada num bordel
Parecido com a vida , resumindo
Brutalmente a vida!
(...)



Alexandre O'Neill

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

domingo, 2 de setembro de 2012

Há Palavras que Nos Beijam


Como se tivessem boca
 (..)
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto
(..)
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)


Alexandre O'Neill,

segunda-feira, 26 de março de 2012

Poesia e propaganda

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A bicicleta


O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.



Alexandre O'Neill

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Do avesso




Quando estou mal disposta
(e estou-o muitas vezes...)
mudo o sentido às frases,
complico tudo...

Alexandre O'Neill

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Noites Assim

 Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
...E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços





Alexandre O´Neill

terça-feira, 3 de agosto de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mãos

Preciso dos outros ( quem de mim precisa?)
Nos teus olhos vejo uma promessa nua.
A esperança está viva, a vida está certa:
Guarda a minha mão
Guardarei a tua

Alexandre O´Neill

quarta-feira, 18 de novembro de 2009