domingo, 30 de setembro de 2018

a invenção do amor



Em letras enormes do tamanho
 do medo da solidão da angústia
 um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
 se encontraram num bar de hotel
 numa tarde de chuva
 entre zunidos de conversa 
e inventaram o amor com carácter de urgência
 deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana 

 Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
 e fome de ternura 
e souberam entender-se sem palavras inúteis 







 Daniel Filipe

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

dentro



Paixão
 é esta faca

 dentro, dentro

 atravessando os dias
 até rasgar a pele
 da mais íntima deserção 






 José Carlos Barros
(Foto de Nishe)

domingo, 23 de setembro de 2018

álibi



agora fiquei triste, realmente, 
emudeci

 o que esta boca sente
 quando sorri! 

 o jardim está sem gente
 e anda um vago sonho por aí 

 quando voltar a minha força ausente
 hei-de pensar neste álibi 






 Mário Cesariny
(Foto de Nishe)

sábado, 15 de setembro de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

partir



Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta.
 E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente. 






 Vergílio Ferreira

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

diário



Toda a vida tive esta sensação:
 quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão
 e se ocupasse de mim 






 Etty Hillesum
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

agora que te sou realmente alheia



Podes dizer ao mundo inteiro que estas letras são tuas. Assim como os desenhos que fiz, os espaços que deixei. Podes dizer a toda a gente que um dia te amei e que foste tu quem me fez poeta. Podes nadar em orgulho ao saber que todos os copos que bebi foram por ti. Que os cigarros que fumei ansiosa e apressadamente foram pela saudade do teu corpo. 

 Quando falarem de raios e relâmpagos, de trovões e de tufões, vais poder dizer que fui eu quem fez a China, quem ergueu muralhas e deitou as lágrimas de sangue. Quando te perguntarem se um dia me conheceste, diz que sim. Responde um afirmativo de poder e de vontade. Podes deixar o medo do conhecimento alheio, agora que te sou realmente alheia. Quando um dia o mundo se desfizer verdadeiramente em estações trocadas - o Verão pelo Outono ou o Inverno pela Primavera - aí podes descansar. Podes contar à galáxia e aos seus sobreviventes que, meu eterno desconhecido, um dia me fizeste rainha. 







 José Eduardo Agualusa

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

coração desabitado



Estás morto. Eu sei. Mas amo-te. 
 Os meus amigos tentam distrair-me
 com jogos, festas, copos e viagens. 
Os meus pais sugerem-me com doçura
 que podia consultar algum psiquiatra 
de renome. Meu amor, que absurdo tudo isto. 
Só tenho certeza de uma coisa:
 não voltarei mais ao cemitério
 até que o meu telefone toque
 e a tua voz me peça um encontro. 






 Amalia Bautista

sábado, 1 de setembro de 2018