sábado, 11 de setembro de 2021

domingo, 5 de setembro de 2021

domingo



 

Acontece-te
 acordares antes do teu braço acordar? 
Alguma vez te ligaram para vender silêncio? 
Para onde vão as palavras
 assim que as soltas no ar? Retiras a crosta à ferida
 para manter a
 dor acesa? Por quanto mais tempo haverá 
ignorantes
 no poder? O amor é vermelho ou 
também existe em preto? A rotina que satura é a 
mesma que protege? Comprar tempo 
num parquímetro 
permite viver mais tempo? Se o gato te arranha
 aproveitas para ler a
 glicemia? Ao terminares a viagem há
 uma placa com o teu nome? Se Deus fosse mulher 
teria descansado ao domingo? Pensa bem: se Deus fosse
 mulher teria descansado
 ao domingo?






 João Luís Barreto Guimarães

terça-feira, 31 de agosto de 2021

livro de poemas



 

eu que nunca li um livro
 de poemas, 
diz-me: que palavras 
curam 
as feridas do amor? 






 José Carlos Barros

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

cegueira



 

Quero ver o que pareço nos espelhos 
com os olhos fechados 






Novalis 
(Foto de Monia Merlo)

terça-feira, 24 de agosto de 2021

domingo, 22 de agosto de 2021

caricia




Es claro que lo mejor
 no es la caricia en sí misma 
sino su continuación 








 Mario Benedetti

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

luz



 

Seja de dia ou de noite
 trago sempre dentro de mim
 uma luz. 
No meio do ruído e da desordem
 trago silêncio. 
Trago
 sempre luz e silêncio. 







Anna Swir

terça-feira, 10 de agosto de 2021

mil e uma noites


Mil abraços 
Mil fracassos
Meu delírio 
Teus pedaços 
Teu calor
 Seja feito teu desejo  

Mil e uma noites.
 Faz uma outra vez  Como se ainda fosse  
 Que prazer  Que saudade  Que maldade
Que fartura  Que loucura  Que cruel tortura  Nos carinhos teus 
Minha santa criatura  
  
Diz que jura






segunda-feira, 2 de agosto de 2021

agosto


Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
O teu lugar à mesa ficou vazio. Eu passei a coleccionar
os nomes de coisas distantes, sentei-me a desenhar
sistemas de coordenadas, soletrei os hemisférios
das palavras, regressei às zonas epidérmicas do toque,
à fome anatómica dos gestos, às regiões endémicas
dos sismos, à solidão unívoca das margens dos rios,
ao silêncio lento das magnólias. Trouxe o domingo
para dentro de casa e guardei-o junto ao parto
em que me deste à luz.
Digo: Os dias são todos de morrer.
Nenhuma das memórias que tenho de ti
sabe negar essa evidência.





José Rui Teixeira

sexta-feira, 30 de julho de 2021

abandono




E ao fim do meu dia
 a matéria de que se faz a minha vida 
de novo abandonada 
de novo de novo abandonada
 pergunta-me silenciosa
 se ao apagar da luz 
a vida terá princípio. 






 Pedro Tamen

segunda-feira, 26 de julho de 2021

amor



 

Deste-me todos os frutos 
e eu multipliquei as mãos
 para te olhar nos olhos. 







 Rosa Alice Branco

terça-feira, 20 de julho de 2021

vem à minha casa





 

Tenho uma lamparina
 Que trouxe das arábias
 Para te amar à luz do azeite
 Num Kamasutra de noites sábias






quarta-feira, 14 de julho de 2021

repara em mim

 


Vi como retiraste do vaso a terra, 
e da terra as raízes da planta desconhecida. 
Depois, com a tesoura de ferro, 
cortaste o caule no ponto
 certo. Em seguida, renovaste 
a terra no vaso. 
enterraste nela de novo a planta
 que ressurgiu, surdamente,
 na manhã de primavera 
que sempre finda. 
Agora, desvia um pouco o olhar, 
repara em mim agora: vês as raízes, 
o caule dobrado, a flor, o nome?
 Por que não me cortas os braços, as mãos, 
os pés, o tronco, e espalhas tudo 
aos bocados pela terra? 
Só preciso de um pouco de água:
 em todos os lugares crescerei para ti. 







 Luís Filipe Parrado

sexta-feira, 9 de julho de 2021

vazio


 

quase não apareces
 nas fotografias
 desse tempo

 às vezes é como se
 lá não estivesse 
ninguém 






José Carlos Barros

segunda-feira, 5 de julho de 2021

cenas tristes



 

Devia escrever coisas mais divertidas, 
entreter as massas. 
Evitar, ao menos, cenas tristes, 
mudar de roupa uma vez por mês. 
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo, 
dos seus humores. 
Entrar na biopolítica, usar os seus métodos.
 Engravidar uma ideia alegre. 
Enfim, nada contra os suicidas de carreira 
e os demais performers do além.
 Não é que não me apeteça largar-te
 num eléctrico sem travões. 
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória. 
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
 Fazer o truque.
 Mas se o meu psiquiatra ler isto, 
vai achar que o tratamento 
já não funciona. 







 Golgona Anghel
 (Foto de Saul Leiter)

quarta-feira, 30 de junho de 2021

podem cortar-me o coração que eu vivo



 

Aproxima-te.
Preciso dos teus olhos acesos para não me despenhar no vazio. 
Para não ter frio 






Daniel Faria

segunda-feira, 28 de junho de 2021

confissão


Sou de chorar: lugares comuns em filmes irrelevantes; actos de heroísmo vendáveis em múltiplos; sofrimentos com rosto; inteligências ou sensibilidades incompreendidas; solidões; abandonos (a mesma coisa – uma solidão mesmo empenhada, é sempre um abandono, muitos); memórias irrepetíveis e os seus ecos (the way we were, still crazy after all these years, formulações sintéticas em cançonetas); o sexo como entrega/abandono/achamento/epifania – as melhores lágrimas, as mais confusas, inexplicáveis, totais. Sermos livres dá vergonha por sermos presos. Na mesma medida em que sermos presos dá vergonha por sermos livres. As mulheres têm vergonha de ser homens. Os homens têm vergonha de ser mulheres. Todos temos vergonha de sermos pessoas. Humanos. Só. Completamente. E, lá no fundo, sabemos quem pôs em nós essa vergonha – o sacana que não conseguimos deixar de amar mais do a nós próprios. Um nome que é toda (um)a tesão. Deus. E que, para mim, tem o teu rosto, tuas mãos, teus pés, teus joelhos, tua nuca, teu cuspo, tua merda, o teu olhar perdido no horizonte, uma melodia que se apoderou dos meus ouvidos e do meu cérebro como se vinda ininterruptamente dos teus lábios, que me perseguem como um cão misterioso. Foda-se – desculpem-me – mas é a isto que se chama Amor! 






Miguel Martins

quarta-feira, 23 de junho de 2021

quotidiano




Então, 
 de todo amor não terminado
 seremos pagos 
 em inumeráveis noites de estrelas. 
 Ressuscita-me,
 nem que seja só porque te esperava 
 como um poeta, 
 repelindo o absurdo quotidiano! 






 Vladimir Maiakovski

segunda-feira, 21 de junho de 2021

soneto menor à chegada do verão






Eis como o vento
chega de súbito,
com seus potros fulvos,
seus dentes miúdos,

seus múltiplos, longos
corredores de cal,
as paredes nuas,
a luz de metal,

seu dardo mais puro
cravado na terra,
cobras que despertam
no silêncio duro

Eis como o verão
entra no poema.




Eugénio de Andrade


quinta-feira, 17 de junho de 2021

os dias adiados



 

Pesar-me. Ter sessenta quilos
 e perguntar porquê. Silêncio de balança. 
Porque sinto o peso daquilo que me cansa 
o mundo que se expande na cabeça 
os dias adiados, longos anos
 a lentidão que avança com os anos
 a respiração, o esforço de viver
 para cima quando tudo está a ceder. 
Porque dentro peso muito. E ao contrário
 da força de atracção do corpo pela terra. 







 Carlos Poças Falcão
 (Foto de Ezgi Polat)

sábado, 12 de junho de 2021

tom waits



 

Make it rain, disse ele. 
E as estrelas de Paris obedeceram







 Manuel de Freitas

terça-feira, 8 de junho de 2021

limites



 

Pela janela que amanhece retira-se a noite
 e entre os livros empilhados que lançam sombras
 irregulares na mesa difusa, 
deve haver um que eu jamais lerei.






Jorge Luis Borges

sábado, 5 de junho de 2021

espera





 

( estou inventando uma língua para dizer o que preciso) 





Ana Martins Marques

quarta-feira, 2 de junho de 2021

direito de escolha



 

era uma daquelas alturas em que hesitamos
entre conduzir directamente contra o poste
 ou pedir mais uma cerveja
 e deixar passar o impulso






 Rosa Oliveira

segunda-feira, 31 de maio de 2021

quinta-feira, 27 de maio de 2021

dúvida





Não sei se é amor
 ou
 a minha vida que pede socorro 









Eunice Arruda

quarta-feira, 26 de maio de 2021

meu amor




Flor de acaso ou ave deslumbrante, 
 Palavra tremendo nas redes da poesia,
 O teu nome, como o destino, chega, 
 O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo 
 De todas as cores do dia!






 Alexandre O′Neill

sexta-feira, 21 de maio de 2021

nada mais que um coração


 

Para que o guardasse
 no cofre do peito confiaste-me 
o teu coração. Mas todos 
me disseram que era apenas um coração, 
nada mais que um coração. De modo 
que fui fraco, vil, cedi,
 e deixei que mo levassem. Por trinta moedas. 
Agora arrasto-me por tabernas infectas 
a pagar, rodada após rodada, 
copos cheios de fel aos que, 
com a sua miséria solitária,
 fazem companhia à minha miserável 
 solidão. O álcool não dilui porém
 uma gota sequer da cicuta 
do remorso. Pelo contrário:
só lembra, a quem quer esquecer,
 que Roma não perdoa a traidores.









Luís Filipe Parrado
(Foto de Natalia Drepina)

domingo, 16 de maio de 2021

não sei o que fiz antes de te amar



 

Não sei que vão comércio ou vã empresa, 
Que estrada percorri, que luz acesa 
Deixei pra que voltasse pra apagar 







Daniel Jonas

quinta-feira, 13 de maio de 2021

domingo, 9 de maio de 2021

haiku



 

Um dia
 arderás o caminho
 para que ninguém 
 siga os teus passos






 José Tolentino de Mendonça

quarta-feira, 5 de maio de 2021

a arte da guerra



 


  

(um vaso de orquídeas que amavas tanto 
sem eu saber porquê e que talvez por isso 
não voltei a regar)





segunda-feira, 3 de maio de 2021

obras



 

esta cidade
 deuses
 esta cidade está em obras 

 e eu também
 mas os meus andaimes
 não são visíveis 
 e por isso ninguém acredita

 já de Deus ninguém duvida 






 Inês Francisco Jacob
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 29 de abril de 2021

tanto faz



 

Vens-me buscar?
 - Vou. Mas onde?
 - Tanto faz, desde 
 que me venhas buscar.





 Pedro Paixão

terça-feira, 27 de abril de 2021

cegueira



 

Não vês a sombra do desejo 
Furtiva em cada esquina do teu gesto 
Não vês que tudo aquilo que em ti vejo
 É tudo em que o amor é manifesto 
 Não vês as mariposas no cabelo 
E a rosa que em teus lábios se desnuda 
Não vês que o teu olhar é o modelo 
das vinte madrugadas de Neruda 
Não vês no teu sorriso o fogo-posto
 que lavra nos fados onde morei
 
Se não vês tudo isto no teu rosto 
perdoa, meu amor, porque ceguei. 








 João Monge

quarta-feira, 21 de abril de 2021

o teu nome




Para não cortá-los eu
 pedi na casa de tatuagens
 que me gravassem o teu nome
 nos pulsos 








 




 José Carlos Barros

sábado, 17 de abril de 2021

love story



 

Nunca encontrámos 
 o lugar onde o amor se forma. 
 Tentámos, aceitando os desencontros, 
 dançámos em torno, 
 arrepiámos uma breve carícia,
 separámos-nos
 sem descobrir o que haveria a descobrir,
 o que haveria a atravessar: 
 uma montanha, um túnel, 
 ou mina ou arco 
 de uma ponte. 
 Agora contemplo uma cama
 vazia 
 flutuando numa barragem 
 longe do lugar
 que poderíamos ser. 
 Muitas coisas se partilharam, 
 as palavras não eram pedras, 
 o vento alguma vez
 nos juntou os cabelos.
 Nunca encontrámos
 o lugar onde o amor se arma.
 Foram pedaços de muita coisa:
 quando os queria colar
 sempre algum era arrastado pela chuva, 
 sempre algum se perdia em lençóis de sombra.
 A imagem de cada um de nós
 nunca foi suficiente
 para criar no outro o relâmpago,
 o pássaro ígneo, delirante. 
 Nunca encontrámos
 o percurso das águas, 
 o lugar onde o amor se firma.









 Egito Gonçalves 
( Foto de Ezgi Polat)

quinta-feira, 15 de abril de 2021

sábado, 10 de abril de 2021

promessas




Dou-te, como desde sempre, o poder 
 De escreveres na pele da minha mão
 As promessas que te fiz 






Daniel Faria

terça-feira, 6 de abril de 2021

o amor em visita



 

Eu deixei um bilhete sobre a mesa para quando você acordar. 
Eu tive que sair muito cedo e não sabia exatamente que 
palavras deixar. Eu queria te dizer várias coisas sobre a noite, 
coisas que começariam com palavras claras e doces, mas
 ligeiramente acidas, e depois um pequeno segredo e uma
 declaração firme e discreta e por fim uma frase que seria fria
 por fora mas quente por dentro como uma sobremesa francesa. 
Mas foi tão difícil, o sol batia de leve sobre a mesa, você
 dormia tão próximo e eu ainda não tinha calçado os sapatos,
 o que certamente interferiu um pouco na minha caligrafia. 
Seu apartamento de manhã ainda decorado com os restos 
da noite. Eu não sabia o que dizer, e se a única caneta que
 encontrei era vermelha você pode supor meu sobressalto e
 então eu apenas escrevi
 É tão tarde, mas
 eu estou pronta
 se você estiver
 e desenhei sem cuidado no canto esquerdo do papel
 um pequeno veleiro 









 Ana Martins Marques

sexta-feira, 2 de abril de 2021

sexta feira da paixão



 

Se eu um dia voltar hei - de morar onde ninguém saiba 
hei - de ter um limoeiro carregado hei - de sair ao lusco - fusco rente aos muros 
só para sondar os mistérios que há no fulgor instável das magnólias 









 Ivone Mendes da Silva

segunda-feira, 29 de março de 2021

desorientação



 Entrar na tua vida tal qual um furacão, 
destrambelhar os móveis, a família, o dinheiro,
entrar-te na cabeça e, sem pedir perdão
 partir e regressar, ao ritmo de um romeiro. 

E ter a cama à espera, desejo que não esquece, 
e ter a tua boca, respiração de penas,
 apenas uma lágrima- o silêncio engrandece
 nossa constelação de estrelas tão pequenas. 

Amar-te ainda e sempre, e sempre mais, e tudo
 se assemelhar ao nome que te dou quando a sós, 
e saber que o que digo, quando me digo, mudo,
 nasce da fonte clara, me vem da tua voz 






 Miguel Martins

quarta-feira, 24 de março de 2021

nas curvas apertadas do coração


 

Quando o grande amor da nossa vida e o grande
 falhanço dela foram ou são experiências
 coincidentes, indestrinçaveis ---- uma mesma
 e única coisa: bonito serviço ---- o menos que
 pode dizer-se é da hecatombe, entre mortos
 e feridos, só nós é que não havemos de escapar 







 Rui Caeiro

segunda-feira, 22 de março de 2021

geografia íntima


o que me dói tem um nome que não obedece a mapas:
a memória é um tempo desavindo.
 



Rui Nunes

domingo, 21 de março de 2021

a poesia



 

A poesia de uma mãe que grita da varanda
 chamando os filhos para a mesa. 
A poesia de um rádio que toca do outro lado
 de uma janela entreaberta.
 A poesia de um mendigo curvado à frente de um chapéu
 no passeio, à espera de esmola. 
A poesia de um charco quase seco entre as pedras. 
A poesia de uma mulher que se levanta da cama
 e procura às apalpadelas o sutiã na penumbra. 
A poesia de um cão que se espreguiça
 bocejando numa esteira.
A poesia de um televisor silenciado 
enquanto se ouve música e os corpos se afastam. 
A poesia de uma rua a meio da tarde 
em cujo extremo há uma fresta de luz que se projecta
 sobre o mar, atravessada pelos tombos de um bêbado. 
A poesia de uma voz ao telefone. 
A poesia de um autocarro que sobe a avenida 
cheio de gente ensimesmada. 
A poesia de um velho e desdentado vagabundo
 emborcando um pacote de vinho na escadaria de uma igreja.
 A poesia de uma mancha de óleo na calçada. 
A poesia de um gordo que se agacha 
com um cigarro entre os lábios
 para atar os sapatos ao fundo do balcão. 
A poesia de uma velha que retoca a maquilhagem
 ao espelho. 
A poesia de umas mãos que quase não são as minhas
 sondando (seduzindo?) o teclado… 

 Toda esta poesia que nunca cabe num poema 






 Roger Wolfe

quarta-feira, 17 de março de 2021

o labirinto


da flor


Para sobreviver à noite decidimos perder a memória.
 Cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo. 
Mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, 
registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática
 das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza.
 Escutámos o que há de inaudível em nossos corpos. 
 
Era quase manhã no fim deste cansaço.







Al Berto
(Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 15 de março de 2021

sobre a cegueira



 

Cerré mi puerta al mundo; 
se me perdió la carne por el sueño
 Me quedé, interno, mágico, invisible, 
desnudo como un ciego.

 Lleno hasta el mismo borde de los ojos,
 me iluminé por dentro. 

 Trémulo, transparente, 
me quedé sobre el viento, 
igual que un vaso limpio 
de agua pura, 
como un ángel de vidrio 
en un espejo. 






 Emilio Prados