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quarta-feira, 16 de outubro de 2024

domingo, 4 de agosto de 2024

recados escritos à pressa


 

Vem, antes que os meus olhos só vejam o que tu não vês,
 e as minhas mãos já não toquem o que tu tocaste
e a tua boca se canse de procurar o que de ti ainda possuo, 
 e do teu nome não reste mais que uma metade do meu 





 Al Berto

terça-feira, 15 de agosto de 2023

terça-feira, 4 de julho de 2023

julho



Estávamos em Julho, 
fechei o caderno contigo lá dentro,
 nunca mais voltei a apaixonar-me








Al Berto

terça-feira, 19 de julho de 2022

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

só para te dizer




Corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra 
só para te dizer boa noite 
ou talvez tocar-te
e morrer





Al Berto

sábado, 18 de dezembro de 2021

a ultima noite


Sinto que se aproxima de mim um destino que não escolhi.
O amor corrói-me a pele, mistura-se ao desejo 
e não me deixa sossegar, nem mesmo quando durmo
mas o amor não é eterno.

Deve ser avassaladora e medonha a última noite de amor








Al Berto

quarta-feira, 17 de março de 2021

o labirinto


da flor


Para sobreviver à noite decidimos perder a memória.
 Cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo. 
Mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, 
registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática
 das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza.
 Escutámos o que há de inaudível em nossos corpos. 
 
Era quase manhã no fim deste cansaço.







Al Berto
(Foto de Natalia Drepina)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Noites tão curtas


a página seguinte está em branco
  mas lembro-me que te agarrei a mão e disse:
  todos os cigarros do mundo são para ti




Al Berto

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

frio



 

ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia. 






 Al Berto

domingo, 29 de novembro de 2020

que quererá isto dizer?



 

Começar o dia assim: desenhando passos circulares na lama da azinhaga. 
 cães, cheiro a estrume, a solidão paga-se logo de manhã cedo, como uma chuva que nos fustiga
… estou desatento ao que se passa comigo. não consigo avançar uma linha, 
dormito mais do que escrevo. tenho a alma triste.
 Ao certo, que quererá isto dizer?




 Al Berto 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

recado



nada mais possuo 
 a não ser este recado que hoje segue manchado
 de finos bagos de romã

repara como o coração de papel amareleceu
 no esquecimento de te amar 






 Al Berto

segunda-feira, 4 de maio de 2020

o destino deste corpo



mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração.






Al Berto

sábado, 11 de janeiro de 2020

11.01



não venhas ter comigo. sobretudo hoje que tanto tenho pensado em ti. 
não venhas. 






Al Berto

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

esperar



e na espera duma carta acabaria por me embebedar
 beber muito e esperar 
esperar 

digo tudo isto mas já não te amo






 Al Berto

segunda-feira, 4 de março de 2019

Postscriptum



apercebo o lume dum coração antigo e simples
 atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter
 aqui deixo o espólio daquele cuja vida
 é cintilação de lugares nítidos

 (um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
 ficaria tudo por recomeçar
 mas se aqui voltares
 talvez encontres estes papéis escritos
 no recanto mais esquecido da noite
talvez descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou

 vou destruir todas as imagens onde me reconheço 
 e passar o resto da vida assobiando ao medo






 Al Berto

terça-feira, 16 de outubro de 2018

desassossego



A noite é um telefone público. 
 Uma voz que não atende. 
Um corpo que se agita no desassossego do meu






 Al Berto

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Os livros fecharam-se com a nossa história dentro deles




O tempo cobre-se de musgo. Mas reconhecerei as ruínas daquilo que amei, daquilo que nomeei para entender o mundo. A vida já ali não estará, e eu lembro-me: nenhum recanto dos gestos me era desconhecido. Nenhuma sedução me era estranha. A noite foi-se tornando cada vez mais pesada sobre os ombros. As roupas deixaram de estilhaçar debaixo das carícias. Os olhares foram-se fixando, horas a fio, por entre os papéis amachucados, atirados ao chão. A máquina de escrever parou. Os livros encheram-se de poeira, fecharam-se para sempre com a nossa história dentro deles. Não voltaram a abrir-se. 






 Al Berto

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018




não sei bem se continuo apaixonado, não sei bem se vale a pena continuar apaixonado por ti. 
 não sei. vejo-te e todo eu tremo. todo o meu corpo é um lamento, e pede socorro ao teu olhar, 
 às tuas mãos. a um simples sorriso. uma palavra que me descanse. 





 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)