Mostrar mensagens com a etiqueta Al Berto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Al Berto. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de março de 2019

Postscriptum



apercebo o lume dum coração antigo e simples
 atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter
 aqui deixo o espólio daquele cuja vida
 é cintilação de lugares nítidos

 (um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
 ficaria tudo por recomeçar
 mas se aqui voltares
 talvez encontres estes papéis escritos
 no recanto mais esquecido da noite
talvez descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou

 vou destruir todas as imagens onde me reconheço 
 e passar o resto da vida assobiando ao medo






 Al Berto

terça-feira, 16 de outubro de 2018

desassossego



A noite é um telefone público. 
 Uma voz que não atende. 
Um corpo que se agita no desassossego do meu






 Al Berto

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Os livros fecharam-se com a nossa história dentro deles




O tempo cobre-se de musgo. Mas reconhecerei as ruínas daquilo que amei, daquilo que nomeei para entender o mundo. A vida já ali não estará, e eu lembro-me: nenhum recanto dos gestos me era desconhecido. Nenhuma sedução me era estranha. A noite foi-se tornando cada vez mais pesada sobre os ombros. As roupas deixaram de estilhaçar debaixo das carícias. Os olhares foram-se fixando, horas a fio, por entre os papéis amachucados, atirados ao chão. A máquina de escrever parou. Os livros encheram-se de poeira, fecharam-se para sempre com a nossa história dentro deles. Não voltaram a abrir-se. 






 Al Berto

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018




não sei bem se continuo apaixonado, não sei bem se vale a pena continuar apaixonado por ti. 
 não sei. vejo-te e todo eu tremo. todo o meu corpo é um lamento, e pede socorro ao teu olhar, 
 às tuas mãos. a um simples sorriso. uma palavra que me descanse. 





 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017




Hoje todas as sílabas da noite são o teu nome. Todas as lâmpadas
 acesas revelam o teu corpo. Todos os silêncios são um telefone que
 não toca. E a boca nos teus cabelos, e a mão delineando o rosto --- a 
 língua que acende a pálpebra, a água da pele diluindo as horas. O 
 calor da respiração ateando o lume da ausência. As ruas vazias. 






 Al Berto
(Foto de Cristina Coral)

terça-feira, 13 de junho de 2017




Sinto que há uma estranha eternidade naquilo que amámos
 e foi destruído 






 Al Berto

sexta-feira, 2 de junho de 2017




A memória, essa areia movediça onde enterrei a sombra do teu nome, 
 continua a doer.







Al Berto

quinta-feira, 11 de maio de 2017

as tuas mãos queimam-me a fala




e tu sussurras: 
 - não, não afastes a boca da minha orelha.
 derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
 e eu digo: 
 - as tuas mãos queimam-me a fala. 
 tu sorris, dizes:
 - vem, sem medo, pela aridez do meu corpo.






 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 17 de abril de 2017




Por vezes a memória reacende paixões.
 É o tempo de viver noutro corpo reduzido à breve nudez
 de um verso. Um verso que seja é suficiente para adiar a morte. 








 Al Berto
 (Foto de Ralph Gibson)

terça-feira, 11 de abril de 2017




Quantas vezes estendi a mão e nela guardei a tua ausência?






 Al Berto
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 28 de março de 2017

esperar




(...) 
tenho a certeza de que parto para sempre 
não haverá regresso nenhum
 creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe 
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
 num país com sabor a tamarindos rodeados de mar 
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
 a paixão nascesse durante o sono
 um país um pouco maior que este quarto
 fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
 poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
 inventaria mesmo desculpas plausíveis
 greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
 catástrofes
 e na espera duma carta acabaria por me embebedar
 beber muito e esperar 
esperar
 digo tudo isto mas já não te amo
 (…)







 Al Berto

sexta-feira, 24 de março de 2017

frio




ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia.







Al Berto

quarta-feira, 8 de março de 2017




Esqueci-me como se ama furiosamente. não venhas ter comigo. sobretudo hoje que tanto tenho pensado em ti. não venhas.
 só na ausência ainda consigo desejar-te. se aqui vieres será um dia terrível para mim. terei de fingir, de enganar-me.
 quando estás não te amo, ou amo-te tão intensamente que às vezes me parece que isto já não é amor. 






 Al Berto

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

aceito nunca mais te tocar





Eis a noite da noite onde abro e folheio livros. Esqueço a minha vida toda, ponho-me a cismar sobre aquilo que ainda não sonhei. E aceito como único alimento, o brilho estático das estrelas. Aceito como único presságio a melancolia aérea das açucenas. Aceito como único consolo a desolação imensa dos teus braços. Aceito como único vício aquele cuja pele ainda não toquei. Aceito como única noite a das searas do fundo do mar. Aceito como única fala possível aquela que é susceptível de rasgar pulsos. Aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo. Aceito como único sonho aquele espelho onde te reflectes e me encontro, a noite que me devora, aceito esta dor que me consome, esta escrita, este coração,  este silêncio cada dia maior e mais perturbador, aceito esta cadeira, este livro, este nome, estes olhos esmagados pela insónia, esta cama vazia, este frio, aceito esta janela, esta música , esta faca, este sussurro, esta ausência, estes cadernos rabiscados que não servem para grande coisa... aceito a inutilidade de viver, de morrer, de estar aqui, de me deslocar, de permanecer imóvel, de esperar,  a inutilidade de ouvir, de falar, de escrever, de amar,  aceito o abismo, o olhar ferido na penumbra dos quartos , a dor das mãos percorrendo um corpo, aceito este vazio, aceito esta loucura que me assola lentamente, lentamente, aceito ficar louco, inconsciente, indefeso, aceito viver com estas garras cravadas na alma, aceito a tristeza que me ofereces, a pouca água que necessito para a minha sede, aceito nunca mais me lembrar de mim , nunca mais te tocar , aceito não possuir nada, não querer nada, aceito, aceito nunca mais aqui voltar, nunca mais. 









 Al Berto (Diários)

terça-feira, 15 de novembro de 2016




Fala-me tu do Amor e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância 
 entre o ardor das línguas e a asfixia dos corpos. 







 Al Berto

terça-feira, 8 de novembro de 2016




Com o tempo, murcharam as palavras que guardava para te dizer
As afiadas sílabas já não rompem os papéis alicerces do coração. 
Desce este silêncio sobre a casa, onde outro silêncio mais antigo já se instalara. 
Com o tempo desfolharam as ilusões, não voltarás aqui. 
Mas se por acaso regressasses de mim nada encontrarias 







 Al Berto