domingo, 26 de novembro de 2017




Continua a voltar frequentemente e a tomar-me, 
Sensação amada continua a voltar e a tomar-me, 
Quando acorda a memória do corpo, 
E desejo antigo volta a passar no sangue; 
Quando os lábios e a pele se lembram, 
E sentem as mãos como se tocassem de novo. 
Continua a voltar frequentemente e a tomar-me à noite, 
Quando os lábios e a pele se lembram 







 Konstandinos Kavafis

quinta-feira, 23 de novembro de 2017




Hoje todas as sílabas da noite são o teu nome. Todas as lâmpadas
 acesas revelam o teu corpo. Todos os silêncios são um telefone que
 não toca. E a boca nos teus cabelos, e a mão delineando o rosto --- a 
 língua que acende a pálpebra, a água da pele diluindo as horas. O 
 calor da respiração ateando o lume da ausência. As ruas vazias. 






 Al Berto
(Foto de Cristina Coral)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

sei o papel de cor




Estou aqui, 
 agitando os baldes que a chuva 
 encheu durante a madrugada
 para evitar que o silêncio faça mais vítimas. 
 Fui colocar essa peruca de pardais e vim
 a voar até aqui acima, 
 e agora não sei como inventar as escadas para descer. 
 Dizes que é apenas uma questão de tempo,
 que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
 o pé no vazio. 

 Já nem reparas, 
 mas estou aqui como um animal pré-histórico 
 a ficar enternecido com a bailarina
 da tua caixa musical.
 Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
 o fim da era glaciar. 

 Passo a mão pelos cabelos molhados,
 chove,
 outra vez.
 Há ecos de corpos rasgados 
na gargalhada dos palhaços
 e as hienas começam a ficar impacientes: 
 é tarde mas sobretudo urgente.

 Deixa-me pôr esse vestido 
 com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
 É a minha vez. 
 Sei o papel de cor. 
 Mas não chego para uma história. 







 Golgona Anghel

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017




Da alma só sei o que sabe o corpo:
 onde a esperança e a graça
 aspiram ao ardor
 da chama é a morada do homem. 
 Vê como ardem as maçãs
 na frágil luz de Inverno. 
 Uma casa devia ser 
 assim: brilhar ao crepúsculo
 sem usura nem vileza
 com as maçãs por companhia. 
 Assim: limpa, madura. 






 Eugénio de Andrade

domingo, 12 de novembro de 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

uma saudade sem recomeços




Tudo entre nós foi dito 
Estamos cansados e tristes
 neste Outono de folhas pairando
 e caindo.
 Entre nós as palavras colocam um mundo 
de silêncio e vazio estéril. 
Os próprios sonhos se encheram de neblinas 
e o tempo os amarelece. 
Outono de cismo, de folhas secas
 e bancos abandonados de cimento frio 
Onde não cantam aves
 e o vento desce em brandos rodopios. 
Apenas uma vaga angústia presente,
 uma saudade sem recomeços,
 a lembrança, tépida a gelar como
 veios de mármore. 
Tudo entre nós foi dito,
 olhamos o apodrecer do parque, 
o vento, o repicar leve das folhas
 e sem ressentimentos dizemos adeus.







 Rui Knopfli
 (Foto de Natalia Drepina)

domingo, 5 de novembro de 2017

melancolias




Foto de Sónia Silva


O Outono vem vindo, chegam melancolias,
 cavam fundo no corpo, 
 instalam-se nas fendas; às vezes 
 por aí ficam com a chuva
 apodrecendo;
 ou então deixam marcas, as putas, 
 difíceis de apagar, de tão negras,
 duras. 






 Eugénio de Andrade

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

fogo posto




Mais do que terra, momentos
 houve em que quis deitar para a fornalha
 o coração e as outras coisas todas 
para as quais não encontro nomes rigorosos 







 José Ricardo Nunes

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

nuvens




Foto de Lurdes Júdice


 É tão bom ser nuvem, 
 ter um corpo leve, 
 e passar, passar.
 Leva-me contigo. 
 Quero ver Granada. 
 Quero ver o mar.
  Granada é longe, 
 o mar é distante, 
 não podes voar.
 Para que te serve 
 ser nuvem, se não
 me podes levar? 

Serve para te ver.
 E passar, passar







Eugénio de Andrade