quinta-feira, 29 de novembro de 2018

só se for o coração



Olhe, preciso de dinheiro. 
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio. 
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões. 
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
 A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas. 
Já não tenho paciência. 
Com esta idade, já viu o que é. 
Sujeitar-se a todos os labregos. 
Já tentei noutros bancos, sim.
 Pedi também aos meus pais, é verdade; 
disse-lhes que era para me casar. 
Não, não tenho casa, nem automóvel. 
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo. 
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado. 
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal, 
mas anda a mil. 
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
 Entrada, não sei. 
Só se for o coração. 





 Golgona Anghel

domingo, 25 de novembro de 2018

estar em casa



Ler, escrever, ouvir música, andar a pé, brincar 






Adília Lopes
 (Foto de Nishe)

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

terça-feira, 20 de novembro de 2018

eu tenho tantas flores no coração



Não há ninguém, 
não há ninguém que venda 
flores 
nesta estrada maldita?

 E este mar negro 
e este céu lívido
 e este vento adverso - 
oh, as camélias de ontem
 as camélias vermelhas risonhas 
no claustro de ouro - 
oh, a ilusão primaveril! 

 Quem me vende hoje uma flor?
 Eu tenho tantas no coração: 
mas presas 
em ramos pesados - 
mas espezinhadas -
 mas murchas. 
Tenho tantas que a alma 
sufoca e quase morre 
sob o enorme amontoado
 por oferecer. 
Mas no fundo do negro mar está a chave do coração - 
no fundo do negro coração 
pesará
 até ao anoitecer 
a minha inútil colheita
 prisioneira - 

 Oh, quem me vende
 uma flor - uma outra flor
 nascida fora de mim 
num jardim verdadeiro
 que eu possa dar a quem me espera? 

 Não há ninguém,
 não há ninguém que venda
 flores
 neste triste caminho? 







 Antonia Pozzi
 (Trad. Inês Dias, Foto Anna O)

sábado, 17 de novembro de 2018

amar



Não é de amor que careço. 
 Sofro apenas 
 da memória de ter sido amado. 

 O que mais me dói,
 porém,
 é a condenação 
 de um verbo sem futuro. 
AMAR






 Mia Couto
 (Foto de Nishe)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

De que outra maneira poderei assim te percorrer até à perdição?




(Só me faltavas tu para me faltar tudo,
 as palavras e o silêncio, sobretudo este) 






 Manuel António Pina
 (Foto de Nishe)

sábado, 10 de novembro de 2018

dióspiro



depois do almoço 
quando arrastamos a cadeira 
um pouco para trás 
uma sonolência morna 
entrelaçada de luz
 entra pelas janelas
 ludibria as cortinas
 e difusa poisa no vinho

 é nessa altura que dizemos: 
vou comer este dióspiro
 antes que apodreça 






 Daniel Maia-Pinto Rodrigues

terça-feira, 6 de novembro de 2018

oxímoros para uma ausência



Sonia Silva


Há tanto já explicada a tua 
 ausência tornou-se inexplicável






 Gastão Cruz

sábado, 3 de novembro de 2018

as coisas que cortam



Onde é que pões as coisas todas que lês?
 - perguntas-me após o aguaceiro 
enquanto o céu se acende com relâmpagos
 tardios. Azul cobalto com cinza. Eu estou sentado
 à hindu e espreito lá do divã. Onde é que as ponho? 
Umas acabam nos escombros 
vem o camião na última sexta de cada mês
 e leva os tapetes falsos 
os cadeirões rachados, os brinquedos coxos. 
Umas prendem-se nos fios, outras 
leva-as o vento e enterra-as na areia.
 Ficam as coisas que não deixam em paz
 as coisas que cortam, que magoam
 as que escavam galerias
 as coisas que gorjeiam e reluzem
 as coisas vivas
 as coisas. 







 Alberto Nessi
(Foto de Nishe)