Mostrar mensagens com a etiqueta Golgona Anghel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Golgona Anghel. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

é a minha vez




Estou aqui, 
 agitando os baldes que a chuva 
 encheu durante a madrugada
 para evitar que o silêncio faça mais vítimas. 
 Fui colocar essa peruca de pardais e vim
 a voar até aqui acima, 
 e agora não sei como inventar as escadas para descer. 
 Dizes que é apenas uma questão de tempo,
 que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
 o pé no vazio. 

 Já nem reparas, 
 mas estou aqui como um animal pré-histórico 
 a ficar enternecido com a bailarina
 da tua caixa musical.
 Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
 o fim da era glaciar. 

 Passo a mão pelos cabelos molhados,
 chove,
 outra vez.
 Há ecos de corpos rasgados 
na gargalhada dos palhaços
 e as hienas começam a ficar impacientes: 
 é tarde mas sobretudo urgente.

 Deixa-me pôr esse vestido 
 com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
 É a minha vez. 
 Sei o papel de cor. 
 Mas não chego para uma história. 







 Golgona Anghel

segunda-feira, 5 de julho de 2021

cenas tristes



 

Devia escrever coisas mais divertidas, 
entreter as massas. 
Evitar, ao menos, cenas tristes, 
mudar de roupa uma vez por mês. 
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo, 
dos seus humores. 
Entrar na biopolítica, usar os seus métodos.
 Engravidar uma ideia alegre. 
Enfim, nada contra os suicidas de carreira 
e os demais performers do além.
 Não é que não me apeteça largar-te
 num eléctrico sem travões. 
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória. 
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
 Fazer o truque.
 Mas se o meu psiquiatra ler isto, 
vai achar que o tratamento 
já não funciona. 







 Golgona Anghel
 (Foto de Saul Leiter)

domingo, 2 de agosto de 2020

peças de puzzle



Vou passando às cambalhotas por este fim de tarde
 como uma dúvida à procura do seu ângulo recto.
 Organizo milhares de peças de puzzle, 
reconstruindo mundos perdidos 
com a imagem virada para baixo. 
Transformo as soluções em enigmas. 
Desloco eras, 
reavivo vulcões, 
erijo à volta de um par de mamas, 
escolas de arquitectura, 
histórias de sobrevivência, 
bocas secas, 
dentaduras postiças. 
 Do armário, chega-me 
como um hieróglifo sonoro de uma dor remota,
 o assobio intermitente
 de um rato. Nada nos une, penso,
 a não ser esta janela falsa
 na câmara de gás. 
Passo a mão pela frente molhada,
 mudo, à pressa, 
os lençóis à ilusão
e fico, outra vez, à espreita. 
Seria tanto mais fácil esperar pela eternidade 
se, ao menos, houvesse alguma mini no frigorífico. 







 Golgona Anghel
 (Foto de Monia Merlo)

sexta-feira, 27 de março de 2020

tudo isto



Hoje, vieram buscar-me cedo.
 É a tal história, tiram-me do sono, 
 passam-me para a maca e
 ninguém quer saber das minhas vontades.
 Nem fui fazer chichi, nem me fizeram o buço. 
 Estou com o bordado da fronha estampado nas fuças 
e, com este péssimo aspecto, 
 fazem-me desfilar pelos corredores cheios de gente 
que acorda de madrugada
 e se põe bonita para vir aqui tirar fotografias
 a rins e pulmões. 
 Fora a vadiagem que só entra para aquecer os pés,  
estou eu, feita bicho, amarrada a uma etiqueta,
 como os cavalos na feira. 
 Por isso, puxo com os dois braços
 uma fralda que encontro por perto
 e enxugo o meu rosto pejado de medo, 
 porque tudo isto é mesmo uma merda, 
 mas depois melhora um pouco
 quando me enchem de morfina
 e me devolvem, à saída, o telemóvel. 






 Golgona Anghel
 (Foto de Monia Merlo)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

só se for o coração



Olhe, preciso de dinheiro. 
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio. 
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões. 
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
 A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas. 
Já não tenho paciência. 
Com esta idade, já viu o que é. 
Sujeitar-se a todos os labregos. 
Já tentei noutros bancos, sim.
 Pedi também aos meus pais, é verdade; 
disse-lhes que era para me casar. 
Não, não tenho casa, nem automóvel. 
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo. 
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado. 
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal, 
mas anda a mil. 
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
 Entrada, não sei. 
Só se for o coração. 





 Golgona Anghel

segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cansaço




Olho constantemente para o mapa 
mas já não me lembro para onde queria ir. 
Podia ficar aqui,
 enquanto a noite respira nas janelas embaciadas. 
Os móveis apagam-me os passos 
em ângulos cegos
 e, nessas sombras do incerto, 
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência 
assim como a noite nos tira a roupa 
antes de dormir. 

 Isolado num cantinho da boca entreaberta,
 o teu sorriso
 vai contribuindo para o genocídio dos camarões
 que o vinho branco torna sempre menos sangrento. 
Poderia, de facto, ficar aqui 
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância. 

 Vou esvaziando os copos 
e começo a compilar beijos, 
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
 somos todas putas, rapaz, 
com ou sem vodka. 







 Golgona Anghel
 (Foto de Mariam Sitchinava)