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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

só se for o coração



Olhe, preciso de dinheiro. 
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio. 
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões. 
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
 A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas. 
Já não tenho paciência. 
Com esta idade, já viu o que é. 
Sujeitar-se a todos os labregos. 
Já tentei noutros bancos, sim.
 Pedi também aos meus pais, é verdade; 
disse-lhes que era para me casar. 
Não, não tenho casa, nem automóvel. 
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo. 
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado. 
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal, 
mas anda a mil. 
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
 Entrada, não sei. 
Só se for o coração. 





 Golgona Anghel

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

não adianta muito termos pressa



Somos daqueles que limpam os ouvidos
 com a chave do Mercedes
 e fazem estalar os dedos, 
às escuras, nas salas de cinema; 
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
 homens, quando a noite usa decote. 
 Somos, hoje, a melhor geração 
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso. 
Treinamos predadores de moscas, 
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes. 
 Temos as mãos trémulas, é certo, 
 mas arrumamos,
 seguros, 
 o dominó, no pátio do Alzheimer, 
 pois é a nós que procura a seta. 
 De maneira que não adianta muito termos pressa: 
um dia, alguém chamará por nós 
e nos marcará no peito
 o número da sorte 
com o ferro quente
 com que se conta, 
 na Primavera, 
 o gado. 








 Golgona Anghel

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

sei o papel de cor




Estou aqui, 
 agitando os baldes que a chuva 
 encheu durante a madrugada
 para evitar que o silêncio faça mais vítimas. 
 Fui colocar essa peruca de pardais e vim
 a voar até aqui acima, 
 e agora não sei como inventar as escadas para descer. 
 Dizes que é apenas uma questão de tempo,
 que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
 o pé no vazio. 

 Já nem reparas, 
 mas estou aqui como um animal pré-histórico 
 a ficar enternecido com a bailarina
 da tua caixa musical.
 Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
 o fim da era glaciar. 

 Passo a mão pelos cabelos molhados,
 chove,
 outra vez.
 Há ecos de corpos rasgados 
na gargalhada dos palhaços
 e as hienas começam a ficar impacientes: 
 é tarde mas sobretudo urgente.

 Deixa-me pôr esse vestido 
 com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
 É a minha vez. 
 Sei o papel de cor. 
 Mas não chego para uma história. 







 Golgona Anghel

segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cansaço




Olho constantemente para o mapa 
mas já não me lembro para onde queria ir. 
Podia ficar aqui,
 enquanto a noite respira nas janelas embaciadas. 
Os móveis apagam-me os passos 
em ângulos cegos
 e, nessas sombras do incerto, 
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência 
assim como a noite nos tira a roupa 
antes de dormir. 

 Isolado num cantinho da boca entreaberta,
 o teu sorriso
 vai contribuindo para o genocídio dos camarões
 que o vinho branco torna sempre menos sangrento. 
Poderia, de facto, ficar aqui 
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância. 

 Vou esvaziando os copos 
e começo a compilar beijos, 
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
 somos todas putas, rapaz, 
com ou sem vodka. 







 Golgona Anghel
 (Foto de Mariam Sitchinava)