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quinta-feira, 23 de novembro de 2023

o amor em visita





Começa o tempo na insuportável ternura 
 com que te adivinho








 Herberto Helder

domingo, 30 de julho de 2023

o que se pode dizer



 


E eu estaria a pensar nas palavras do amor, 
 naquilo que se pode dizer quando a extrema 
 solidão nos dá um talento inconcebível 




 Herberto Helder 
 (Foto de Katia Chauseva)

domingo, 18 de setembro de 2022

dormes na minha insónia




És uma faca cravada na minha vida secreta






Herberto Helder
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 6 de abril de 2021

o amor em visita



 

Eu deixei um bilhete sobre a mesa para quando você acordar. 
Eu tive que sair muito cedo e não sabia exatamente que 
palavras deixar. Eu queria te dizer várias coisas sobre a noite, 
coisas que começariam com palavras claras e doces, mas
 ligeiramente acidas, e depois um pequeno segredo e uma
 declaração firme e discreta e por fim uma frase que seria fria
 por fora mas quente por dentro como uma sobremesa francesa. 
Mas foi tão difícil, o sol batia de leve sobre a mesa, você
 dormia tão próximo e eu ainda não tinha calçado os sapatos,
 o que certamente interferiu um pouco na minha caligrafia. 
Seu apartamento de manhã ainda decorado com os restos 
da noite. Eu não sabia o que dizer, e se a única caneta que
 encontrei era vermelha você pode supor meu sobressalto e
 então eu apenas escrevi
 É tão tarde, mas
 eu estou pronta
 se você estiver
 e desenhei sem cuidado no canto esquerdo do papel
 um pequeno veleiro 









 Ana Martins Marques

quinta-feira, 4 de março de 2021

desamparo




ao meio da noite às vezes desamparadamente
 acordas, não acordas: 
tão distante do mundo que o não tocas, 
tão distante do socorro do mundo que não existe ninguém em 
quem toques 






 Herberto Helder
 (Foto de René Groebli)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

também já tive amor



 

 O que não teve gente neste universo tão pródigo? Era arrebatador. Eu via as casas, as ruas, os rostos, os animais que os homens acariciam, esse maravilhoso vagar da terra, e ficava estupefacto, fulminado. Gritava para mim próprio: é um milagre, o milagre! Tão estúpido, tão forte e cheio de poderes! Criava a linguagem; estava continuamente acordado; descobria, diante da matéria interrogada, figurações, modelos, réplicas. Enfim, uma pessoa insuportável.... 
 Escrevi poemas sobre as vozes, as luzes, as metamorfoses, as imagens e equivalências do mundo. E fui por aí fora: filosofia, ciência, estética. Desejava conhecer tudo, abrir os enigmas. Às vezes deixava-me estar sob a chuva a senti-la correr pela cabeça e as mãos, encharcar-me o fato, entrar na carne. Murmurava: é a chuva. Ficava extasiado, louco de dedicação por esta terra feroz e sumptuosa que eu nunca entendia bem. 
Depois tudo foi desaparecendo.... 




Herberto Helder
(Os Passos em Volta)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

brandy






 


 Encha o copo. Assim, até cima. Obrigado. Sabe que tive infância? Claro, não sou um sentimental. Pensa que disponho assim de desafogos morais, luxos do espírito, remansos culturais burgueses, para entregar-me a libertinagens da emoção? Tive infância, só isso. Ou seja: falta de jeito, indecisão, uma grande ignorância. Olhava para as coisas: eram fundas, enigmáticas, desorientadoras. Tudo estava cheio, porque o meu coração ávido tudo recebia: era um espaço palpitantemente vazio. Agora não, agora estou cheio de pessoas, lugares, acontecimentos, ideias, decisões. E tudo me parece deserto. Não, voltar à infância, isso nunca. Sofre-se. O mundo é grande. E há tanta curiosidade e paixão, tanta ignorância. Doloroso. Espera-se, está-se nas coisas, cegamente imiscuído nelas. Que angustiosa, esta voracidade, esta fusão analfabeta com a instável matéria do mundo! Agora sou inteligente. Existo. Existe o universo. Duas realidades distintas, inimigas, inúteis. Sim, deite mais brandy. Sou bêbado, claro. Que esperava? Que fosse um apóstolo, um assassino, um político, um anjo? Não, sou apenas um bêbado. 





Herberto Helder
(Os Passos em Volta)

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

a faca não corta a flor





E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
 A terra move-se sobre os lados, ensinas-me
 o que não saberei nunca: a água ronda.



( obrigada )


 Herberto Hélder

sexta-feira, 15 de maio de 2020

o amor em visita



Todo o tempo é curvo
 quando nas tuas mãos
 sou trajecto e às vezes pássaro.






 Sandra Costa

domingo, 10 de maio de 2020

o espaço interno do teu nome



ah o teu 
amargo, árduo, agudo, 
quente
 nome lavra a minha língua louca, digo: 
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
 e calcinam
 a língua portuguesa 






 Herberto Helder

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

domingo, 17 de junho de 2018

domingo, 8 de abril de 2018

quarta-feira, 4 de abril de 2018

terça-feira, 2 de maio de 2017




Por mim, é por isso que oculto as mãos. 
Tenho-as todas queimadas








 Herberto Helder
 (Foto de Anka Zhuravleva)

segunda-feira, 20 de março de 2017




Há lugares onde esperar a primavera
 como tendo na alma o corpo todo nu. 








 Herberto Helder
 (Foto de Nishe)

sábado, 12 de novembro de 2016




vou ali e já não venho, aproveito a distração de todos 
a minha e a dos outros, e vou-me embora 
sob inúmeras atmosferas, 
dizendo um a um os nomes
 que soam a estrangeiro,
 e a nativo só quando os amor os enflora, 
mas nunca o amor tem a pronúncia que se espera. 







 Herberto Helder