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domingo, 24 de março de 2019

um resto



E depois – quando eu partir 
restará alguma coisa 
de mim
 no meu mundo – 
restará um fino rasto de silêncio 
no meio das vozes – 
um ténue sopro de branco 
no coração do azul –






 Antonia Pozzi
( trad. de Inês Dias)

terça-feira, 20 de novembro de 2018

eu tenho tantas flores no coração



Não há ninguém, 
não há ninguém que venda 
flores 
nesta estrada maldita?

 E este mar negro 
e este céu lívido
 e este vento adverso - 
oh, as camélias de ontem
 as camélias vermelhas risonhas 
no claustro de ouro - 
oh, a ilusão primaveril! 

 Quem me vende hoje uma flor?
 Eu tenho tantas no coração: 
mas presas 
em ramos pesados - 
mas espezinhadas -
 mas murchas. 
Tenho tantas que a alma 
sufoca e quase morre 
sob o enorme amontoado
 por oferecer. 
Mas no fundo do negro mar está a chave do coração - 
no fundo do negro coração 
pesará
 até ao anoitecer 
a minha inútil colheita
 prisioneira - 

 Oh, quem me vende
 uma flor - uma outra flor
 nascida fora de mim 
num jardim verdadeiro
 que eu possa dar a quem me espera? 

 Não há ninguém,
 não há ninguém que venda
 flores
 neste triste caminho? 







 Antonia Pozzi
 (Trad. Inês Dias, Foto Anna O)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

– socorro –




Não ter um Deus 
não ter um túmulo
 não ter nada de certo
 mas apenas coisas vivas que nos fogem – 
existir sem ontem
 existir sem amanhã
 e cegar no vazio
 – socorro – 
pelo sofrimento 
que não tem fim – 






 Antonia Pozzi
 (Foto de Anna O)