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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

agosto


As plantas acenavam ao vento de agosto,
  nas suas hastes finas e verdes.
E disse-me a mais faladora de todas,
  alta e trigueira:
- Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos,
pus-me a contar pelos dedos,
vi que ia ficar com muito pouco.
- Dou - disse eu.
E ainda hoje, que nunca mais soube de mim,
  vou com o vento, balouçando.
E agosto é todo o ano para mim.




Ruy Belo

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

dúvidas




Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
 e antes de chegares, já lá estavas 
naquele preciso sítio combinado 
onde chegavas sempre tarde
 ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
 se ausente mais presente pela expectativa
 por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente. 
Mas sabia e sei que um dia não virás
 que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
  ou até se exististe ou se eu mesmo existi
 pois na dúvida tenho a única certeza 
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos? 







 Ruy Belo
(A foto foi um presente da minha Mó)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015




Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias. 






 Ruy Belo
 (Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015




Que te acontece que não mais fizeste anos
 embora a mesa posta continue à tua espera
 e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez 
 florido? 





 Ruy Belo
(Foto de Nishe)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O meu nome


Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida



Ruy Belo

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

E...


Um olhar perdido é tão difícil de encontrar
como o é congregar ventos dispersos pelo mar



Ruy Belo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Poemas perfeitos em noites escuras


Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

Ruy Belo

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sem escolhas


Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me.
Suicido-me nas palavras.
Ruy Belo

domingo, 14 de março de 2010

Dias assim

Mar alma na tarde morta
que cortas dedos na luz
Abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus.

Ruy Belo

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Definições


Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento


Ruy Belo