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domingo, 8 de outubro de 2017

estou afinad(a)




(...) 
 Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro. 
 A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
 Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras.
 O formol é para os Deuses. 






 Miguel Martins

segunda-feira, 8 de maio de 2017




O "lugar onde" é sempre dentro de nós. 







 Miguel Martins
(Foto de Anka Zuravleva)

domingo, 16 de outubro de 2016

um lugar sem história na história da minha vida




Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história 
na história da minha vida, um lugar de postais antigos, 
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
 de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças. 
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas
 cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar, 
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe 
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo
 por fora e por dentro, criança que não se conhece
 nem quer conhecer e que procura apenas o início
 e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente
 para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar 
 os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber
 pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade
 do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos, 
pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe 
das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
 e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 






Miguel Martins (Desvão)
(Foto de Natalia Drepina)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015




Se tivesse carta, faria sentido comprar um automóvel; 
poderia, então, meter o sofrimento na mala e abandoná-lo num outeiro. 



(estou cansada deste blog)



Miguel Martins
 (Foto de Mariam Sitchinava)

quarta-feira, 4 de março de 2015




Não espero nada. Mas do nada quero tudo. A absoluta negação. A sala do fundo, não o pórtico. 
 Um negrume tão escuro que o imagino estalando em centelhas de uma luz desconhecida. 
 Sangrando luz. Tormento sem desespero. Aliviado. Etéreo e eterno.
 Dôr no fundo dos olhos bem abertos. 





 Miguel Martins

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015




Morrerei sem retratos. Nem de mim nem de ti
 nem de uma ou outra mão que me tocou o ombro.
 (O esforço é um revigorante da memória – 
deixemos o assunto por aqui).
 Morrerei sem cadastros, sem datas ou saltérios,
 com que embalar as noites às crianças do bairro,
 e dessas perdas a que mais me doerá 
é a caligrafia do teu punho nervoso. 





 Miguel Martins
(Foto de Laura Makabresku)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014




Gosto de pessoas que aceleram 
ante a inevitabilidade do precipício, 
roubando assim alguns segundos
 ao indecente gozo de Deus. 





 Miguel Martins

quinta-feira, 5 de junho de 2014

(B.I.)


Sou de chorar: lugares comuns em filmes irrelevantes; actos de heroísmo vendáveis em múltiplos; sofrimentos com rosto; inteligências ou sensibilidades incompreendidas; solidões; abandonos (a mesma coisa – uma solidão mesmo empenhada, é sempre um abandono, muitos); memórias irrepetíveis e os seus ecos (the way we were, still crazy after all these years, formulações sintéticas em cançonetas); o sexo como entrega/abandono/achamento/epifania – as melhores lágrimas, as mais confusas, inexplicáveis, totais. Sermos livres dá vergonha por sermos presos. Na mesma medida em que sermos presos dá vergonha por sermos livres. As mulheres têm vergonha de ser homens. Os homens têm vergonha de ser mulheres. Todos temos vergonha de sermos pessoas. Humanos. Só. Completamente. E, lá no fundo, sabemos quem pôs em nós essa vergonha – o sacana que não conseguimos deixar de amar mais do a nós próprios. Um nome que é toda (um)a tesão. Deus. E que, para mim, tem o teu rosto, tuas mãos, teus pés, teus joelhos, tua nuca, teu cuspo, tua merda, o teu olhar perdido no horizonte, uma melodia que se apoderou dos meus ouvidos e do meu cérebro como se vinda ininterruptamente dos teus lábios, que me perseguem como um cão misterioso. Foda-se – desculpem-me – mas é a isto que se chama Amor! 






Miguel Martins

domingo, 15 de dezembro de 2013

Calendário das Dificuldades Diárias

 

Mais uma queda. Mais uma lasca de madeira cravada no corpo. Estacas de travar vampiros, sêdes. Ossos esmagados, sinapses rotas e, sempre, o fígado fosfórico. De cada vez, a dúvida absoluta. A suspensão da vida. A estupidez mais iníqua amesquinhando a nossa suposta divindade. Transplante? Broa dura? Pastéis de massa tenra de efémeros perfumes? Escolha-me o Diabo a sorte! Tudo poderia ter sido banal, banal e generoso, tivera eu chegado três gerações mais cedo. Vejo-me, à chuva, a apanhar ouriços sob os castanheiros. Analfabeto. São. Vejo-me e não me vejo em parte alguma. Muito menos aqui. Ainda menos agora. Ah!, quem me dera perder, ao menos, a memória dos castanheiros que nunca toquei, que apenas de relance pude amar




  Miguel Martins

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Às vezes


O poema é uma escada
que os olhos descem
enquanto a alma sobe
e,
contudo,
às vezes,
caio no fundo de mim.




Miguel Martins (do seu blog)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dos dias


Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão
e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse



Miguel Martins

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Disseram-me que


Preciso de amor a conta-gotas,
estou a soro,
e já não tenho pele onde espetar tanta agulha.



Miguel Martins

domingo, 12 de agosto de 2012

Não é pedir muito


(...)
Uma caixa de cimento fresco.
 Deita-o lá dentro.
Sabes do que estou a falar.
Vermelho escuro.
 Isso.
 O coração.


Miguel Martins

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Por isso


Detesto toda a psicologia. Pelo menos tanto como o homem de trabalho e os escritores movidos a bons sentimentos, que o querem entreter ou melhorar ao módico preço dos direitos de autor. Para me sustentar tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas. De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo. É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos das mães. As nossas e as delas. A fera com mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora. O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso. Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz. E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre. Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras. Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo. Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro. A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho. Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.


Miguel Martins

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sou eu


São as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres
sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver
sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária
sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral
sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas
sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa
eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa
sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos
eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque me achei só
eu a fugir de encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar
eu em cada vivo, em cada morto, em cada esquina da cidade
sou eu não conseguindo adormecer e, adormecendo, não dormindo
sou eu sem saber fugir a uma luxúria que jamais me faz feliz
eu a habitar um corpo doloroso, como semáforo amarelo
eu vendo outra coisa em cada coisa e em tudo palavras de papel
eu carregando o peso do passado sobre um futuro inexorável
eu mais mortal que os mortais e defrontando a imortalidade
sou eu com a cara e a alma à venda nos escaparates insensíveis
eu pedindo esmola a quem despreza o que lhe posso dar
sou eu rindo-me de mim para evitar chorar por tudo o mais
sou eu irremediavelmente sozinho para toda a eternidade
sou eu sem música de fundo, vendo-me num espelho desbotado
sou eu a fumar como se me defumasse para me poder comer
sou eu silenciando um grito por minuto e escrevendo no mel
eu vestindo toda esta nudez, só para só amar a verdade do amor
e se isto é difícil de entender, dizendo-te outra coisa não seria eu.

Miguel Martins