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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

quem sabe



As lágrimas não sabem
 o que dizem, deixam-se cair 
 em turvos argumentos,
 lembram-se de coisas 
 Quase nos estragam as bebidas.
 Ao fim de três whiskies,
 abres uma porta 
 e tudo se aclara. 
 As memórias, os cadernos, 
 os aprestos do negrume, 
 ficaram para trás. 
 Agora já conheces
 os fósforos que tens, 
 abriga-os da chuva de dezembro.
 Quem sabe que cigarros 
 estarão à tua espera. 







 José Miguel Silva

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016




É mais que certo: não sinto a tua falta.
 Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis, 
a reler as cinco cartas que me foste endereçando 
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
 eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas 
que deixaste no quintal. Sempre só e sem 
carpir o meu estado (porque não me fazes falta), 
pus o disco da Chavela que me deste no Natal 
e comecei a preparar o teu prato preferido. 
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
 abri uma garrafa de maduro e não me custa
 confessar-te que não sinto a tua falta. 
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
 dois convites pra sair (aleguei androfobia)
 e estou neste momento a recortar a tua imagem
 (não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois, 
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
 a inábil idiota que deixou que tu te fosses. 






José Miguel Silva

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015




Mais um dia de estrume para roseira nenhuma






 José Miguel Silva

domingo, 1 de novembro de 2015




Nas ruínas de novembro
 a triste jardinagem dos poemas 
por abrir






 José Miguel Silva

domingo, 25 de outubro de 2015



Ainda bem que partes :
já me sobram mais afagos 
para o gato, mais espaço 
nas gavetas e nas horas; 
com os lenços que deixaste
 posso pôr em cacos limpos 
o restante coração. 

Ainda bem que partes: 
regresso menos cedo
 às arestas do lençol, 
acrescento um cobertor; 
divirto-me a escolher
 em que lado da parede 
não irei adormecer. 

 Ainda bem que partes; 
dura mais o sabonete, 
a graxa dos sapatos,
 o sal e o Domingo;
 só o gin, tem piada,
 dura menos.






 José Miguel Silva

segunda-feira, 13 de julho de 2015




Três e meia da manhã. 
É inútil procurar o candeeiro.
 No estuque da insónia, 
o filme recomeça. 
Que fim será o fim? 
 Pretéritos prazeres, 
cigarros consumidos 
– é isto o coração:
 um cinzeiro de metal? 
Preferia não fumar. 
 Quero tanto o teu amor
 que termino a odiar-me. 
Quem me dera ser o Rambo, 
saber sempre o que fazer ao inimigo. 
Não sei por que sorrio, 
 quando tudo o que me resta é a magia 
que me traz o Halcion: sonhar 
que não existes, nem o filme, 
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco 
cinzeiro de metal. 






 José Miguel Silva
 (Foto de Mariam Sitchinava)

quinta-feira, 7 de maio de 2015




A arte já sabemos nasce 
da imperfeição das coisas 
que trazemos para casa
 com o pó da rua
 quando a tarde finda 
e não temos água quente
 para lavar a cabeça. 
Tentamos regular 
com açudes de orações 
o curso da tristeza
 mudamos de cadeira 
e levamos a noite 
a dizer oxalá
 como se a palavra
 praticasse anestesia. 





 José Miguel Silva

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sem saber



Cai um sino do pinheiro de natal. 
Por muito menos se foge de casa 
de seus pais. Agachados sob o leque
 das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
 são fáceis de engolir. Sem saber,
 já chegamos ao escuro. 
Só nos falta pôr o til na palavra solidão. 





 José Miguel Silva
 (Foto de Nishe)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014




em vez de cortar os pulsos
 cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
 para lhe perguntar por que não tocas. 




 José Miguel Silva

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Prémio


Vales, ravinas, desertos,
e fins de semana, livros a mais,
amigos a menos, noites
de fumo, de corpos alheios,
de novo ravinas, desertos
e vales - eu nunca pensei
que fosse tão longe e que fosse
tão pouco a felicidade:
ovos mexidos, arroz de tomate,
o ir a correr quando o filme começa,
o vem para a cama, um sopro
de mel, e novas legendas no álbum
de fotos - eu nunca pensei
que fosse tão alto este único prémio
de consolação.




José Miguel Silva

domingo, 6 de outubro de 2013

Domingo


Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
regressar ao rijo barro dos Domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes
Quando ainda não sabia
Da dureza do cimento, nem dos modos
De quebrar e ser quebrado.




José Miguel Silva

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Mais um dia


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


José Miguel Silva

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Invocação


Não permitas, Senhora,
que desvie meu olhar
dos passos que perderam
- dez minutos sobre a terra –
aqueles que não possuem
um bilhete de retorno.
Concede-me o lugar
mais distante da lareira,
aquele que não nos serve,
mas de onde se ilumina
esse modo de durar
que só amar ensina



José Miguel Silva

domingo, 2 de dezembro de 2012

Preocupações naturais


Eu não tinha muita coisa e hoje tenho a soma dos teus passos quando desces a correr os nossos treze degraus e me prometes: até logo. Mas se nada (ou só o nada) está escrito, quem mais ama é quem mais tem a recear. Com isso, passo as horas num rebate de dramáticos motivos: engano-me na roda dos temperos, ponho sal na cafeteira, maionese no saleiro, vejo o mel mudar de cor e se me chama o telefone empalideço como o rosto do relógio da cozinha. Só sossego quando as gatas me garantem que chegaste e posso então, aliviado, unir-me ao coro de miaus que te recebe, para mais uma noite roubada ao escuro


José Miguel Silva

sábado, 29 de setembro de 2012

Não é tarde


O amor é como o fogo, não se propaga onde o ar escasseia. Mas não te preocupes eu fecho mais a porta. Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro funciona! Poderoso combustível é o corpo. Acende deste lado. Ainda não é tarde, foi agora anunciado pela rádio, são dezoito e vinte cinco. Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida não se esgota, como os saldos de verão. E a morte, à medida que te despe vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Das coisas que não sabemos mudar


 
Voltemos a isto, ao cálculo dos danos na máquina do mundo, à impotência do riso contra tudo o que não sabemos mudar: a morte, o egoísmo, o levadiço coração humano. Porque não há mais nada (ok, há o amor – vai-te foder) e nos negócios da razão o pessimismo é a moeda do momento. Regressemos ao ruído, à sombria comissão liquidatária desta fábrica de trapos coloridos. Se não há melhor emprego para a culpa e os domingos custam dias a passar.


José Miguel Silva

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poupanças


A teu lado não me importam as notícias,
que tivemos o Inverno mais seco de sempre,
e a guerra, o petróleo, o bulício dos tolos.
Os jornais não trazem nada que me possa
interessar: que aprendeste finalmente a cair
de bicicleta, tens consulta para ontem
com o médico das costas e o teu sono
continua perturbado por afãs de perfeição.
O amor é assim, deixa o logro do mundo
a ganir à porta. Vai tu à janela, se queres,
e atira-lhe um osso de atenção. Eu já não
creio que a história seja o melhor amigo
do homem - tu sim, felicidade perceptível,
âncora do tempo(..) Graças
a ti já comecei a poupar uns oito euros
por semana em semanários, arrelias e afins.




José Miguel Silva