Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Filipe Parrado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Filipe Parrado. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de julho de 2021

repara em mim

 


Vi como retiraste do vaso a terra, 
e da terra as raízes da planta desconhecida. 
Depois, com a tesoura de ferro, 
cortaste o caule no ponto
 certo. Em seguida, renovaste 
a terra no vaso. 
enterraste nela de novo a planta
 que ressurgiu, surdamente,
 na manhã de primavera 
que sempre finda. 
Agora, desvia um pouco o olhar, 
repara em mim agora: vês as raízes, 
o caule dobrado, a flor, o nome?
 Por que não me cortas os braços, as mãos, 
os pés, o tronco, e espalhas tudo 
aos bocados pela terra? 
Só preciso de um pouco de água:
 em todos os lugares crescerei para ti. 







 Luís Filipe Parrado

sexta-feira, 21 de maio de 2021

nada mais que um coração


 

Para que o guardasse
 no cofre do peito confiaste-me 
o teu coração. Mas todos 
me disseram que era apenas um coração, 
nada mais que um coração. De modo 
que fui fraco, vil, cedi,
 e deixei que mo levassem. Por trinta moedas. 
Agora arrasto-me por tabernas infectas 
a pagar, rodada após rodada, 
copos cheios de fel aos que, 
com a sua miséria solitária,
 fazem companhia à minha miserável 
 solidão. O álcool não dilui porém
 uma gota sequer da cicuta 
do remorso. Pelo contrário:
só lembra, a quem quer esquecer,
 que Roma não perdoa a traidores.









Luís Filipe Parrado
(Foto de Natalia Drepina)