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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

enganar as horas




Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na 
 mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje. 
 Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num 
 navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera, 
 sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às 
 vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto 
 ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz 
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio, 
 a solidão e um corpo esquecido do que é o amor. 






 José Mário Silva

quinta-feira, 24 de março de 2016




os ventos todos 
fechados dentro 
da minha mão. 
quantos ciclones 
queres ? 






 José Mário Silva

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015




Um verso apenas
 - ou menos ainda. 






 José Mário Silva
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 20 de abril de 2015




Iludir os alarmes, 
 as câmaras de segurança, 
 a paranóia infravermelha. 
 Entrar com os pés descalços, 
 avançando rente ao solo, 
 o coração no sítio certo. 
 Não ter pressa, fugir só
 no último segundo, nunca 
 pela saída da emergência.





 José Mário Silva

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015




Como nos bares decrépitos
 do red light district, há letras
 do meu nome que já não
 se acendem e outras
 que piscam ou
 tremeluzem 
a noite inteira 




 José Mário Silva