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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

não sei



A magnólia floriu este inverno
 e eu não sei como dizer-te 
 que me comove ainda que dê flor








 José Rui Teixeira

segunda-feira, 8 de agosto de 2016




Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
 Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera 
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, 
porque era a tua voz que me trazia o outono, 
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
 a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica 
da extinção das espécies. 

 Eu fiquei incendiado 
em compartimentos sem atributos térmicos, 
manuseando de um modo temerário coisas 
como dogmas ou outros objectos teosóficos. 

 Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
 a soletrar silenciosamente o teu regresso. 






 José Rui Teixeira
 (Foto de Ezgi Polat)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016



Sónia Silva


Como dizer-te os caminhos ou a solidão pousada
 no teu corpo adormecido, entregue à luz ocasional
 como um lugar inabitado? Como dizer-te que te levo
 o alimento à boca se te beijo?
 Devolves-me a humidade da terra 
e o teu coração dispara à superfície da pele,
 e as tuas mãos sulcam os abismos como povoados. 
Como dizer-te que entendo a queda como vocação
 para cair? Como explicar-te que to digo habitado
 pela vertigem de olhar-te?
 Dá-me um lugar à chuva, porque eu 
não sei dizer-te sem que morra que existo
 na extensão perceptível da tua respiração. 



(roubo fotos á Sónia que troco por poemas)


 José Rui Teixeira

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Este inverno


A magnólia floriu este inverno
e eu não sei como dizer-te
que me comove ainda que dê flor



José Rui Teixeira

domingo, 18 de novembro de 2012

Trouxe o domingo para dentro de casa


Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
O teu lugar à mesa ficou vazio. Eu passei a coleccionar
os nomes de coisas distantes, sentei-me a desenhar
sistemas de coordenadas, soletrei os hemisférios
das palavras, regressei às zonas epidérmicas do toque,
à fome anatómica dos gestos, às regiões endémicas
dos sismos, à solidão unívoca das margens dos rios,
ao silêncio lento das magnólias. Trouxe o domingo
para dentro de casa e guardei-o junto ao parto
em que me deste à luz.
Digo: Os dias são todos de morrer.
Nenhuma das memórias que tenho de ti
sabe negar essa evidência.



José Rui Teixeira

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ninguém me disse


Ninguém me dissera que os incêndios são homens a arder no interior das suas memórias com as mãos nas têmporas e demónios à volta da mesa.
Ninguém me falara da roseira que houve no jardim, já a morte induzia a intempérie contra o meu corpo parado.
Ninguém me explicara que se sobrevive sem útero na margem dos dias.

José Rui Teixeira

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Trago os bolsos cheios dos teus poemas

... E se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio


José Rui Teixeira

sábado, 26 de dezembro de 2009

Dias assim

Há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema

José Rui Teixeira