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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

a condição



Podes até chegar ao ponto extremo
 da crueldade, do ódio ou desprezo
 Podes envenenar de indiferença
 esta pele sempre espera de carícias 
Podes ir para o Japão ou qualquer lado
 desde que me escrevas todos os anos
 Permito-te qualquer deslize absurdo, 
as humilhações,doenças, manias, 
gostares das raparigas do anúncio
 de meias, ou quereres ser meu amante 
quando já não sentes amor por mim 
Eu iria suportar tudo, excepto 
a ingratidão que vem do esquecimento 






 Amalia Bautista

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

coração desabitado



Estás morto. Eu sei. Mas amo-te. 
 Os meus amigos tentam distrair-me
 com jogos, festas, copos e viagens. 
Os meus pais sugerem-me com doçura
 que podia consultar algum psiquiatra 
de renome. Meu amor, que absurdo tudo isto. 
Só tenho certeza de uma coisa:
 não voltarei mais ao cemitério
 até que o meu telefone toque
 e a tua voz me peça um encontro. 






 Amalia Bautista

segunda-feira, 2 de julho de 2018

coração desabitado



Ocupas-me metade do coração
 um pulmão, uma orelha, um braço, um olho 
uma perna, um rim e meio cérebro. 
Inutilizas metade de mim, 
funciono a meio gás, respiro pouco, 
ando desajeitada, penso mal, 
canso-me, sou lenta. 
Da alma não te basta só metade,
 e roubaste-ma toda 







 Amalia Bautista

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018




agora que é de noite todo o dia,
 inverno todo o ano
 e a semana só tem segundas-feiras, 
onde olhar, onde virar os olhos, 
que não encontre os olhos da morte?






 Amália Bautista

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

travessia




Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, 
nem ícone que proteja, nem oração que console; 
nunca houve milagres ou prodígios, 
nem salvação da alma ou vida eterna; 
nem palavras mágicas, nem bálsamo eficaz 
contra a dor que não enfraquece nunca;
 e nem luz do outro lado das sombras,
 nem saída do túnel, nem esperança. 
Só nos acompanha nesta travessia
 um anjo da guarda perplexo que suporta 
a mesma vida que cão que nós todos. 






 Amalia Bautista

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Nunca mais




Eu sempre perguntava coisas tontas, 
é certo. Perguntava, por exemplo, 
se voltarias a amar-me tanto 
como nos dias do amor mais jovem, 
ou mesmo mais, ou mesmo mais que nunca,
 mesmo mais que a ninguém, e se serias
 capaz de confessá-lo ante qualquer. 
É certo, perguntava coisas tontas, 
não merecia uma resposta séria. 
Aquele ser, mais escuro que a noite 
mais escura da alma, respondia 
sem olhar-me nos olhos: «Nunca mais.» 







 Amalia Bautista
 (Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 31 de março de 2016





Eu não sou dessas mulheres
 incapazes de amor e ternura. 
Eu sei o que é coragem e sangue,
 embora odeie o sacrifício e me repugne 
a vaidade que nasce da violência. 
Quero ser mulher de um mercenário, 
de um poeta ou de um mártir, é igual.
 Eu sei fitar os olhos dos homens, 
sei quem merece a minha ternura. 






 Amalia Bautista

segunda-feira, 19 de outubro de 2015




Protege-me das sombras e do medo 
defende-me de todas as tristezas, 
desterra-me da vida o desconsolo
se possível, com o teu amor, se não, 
com o fim do mundo ou com a minha morte. 






Amalia Bautista
 (Foto de Natalia Drepina)

terça-feira, 13 de outubro de 2015




Julgava que te tinha dito adeus, 
um adeus contundente, ao deitar-me, 
quando pude por fim fechar os olhos, 
esquecer-me de ti, dessas argúcias, 
dessa tua insistência, teu mau génio,
 tua capacidade de anular-me. 
Julgava que te tinha dito adeus
 de todo e para sempre, mas acordo, 
encontro-te de novo junto a mim,
 dentro de mim, rodeias-me, a meu lado, 
invades-me, afogas-me, diante 
dos meus olhos, em frente à minha vida, 
por sob a minha sombra, nas entranhas, 
em cada golpe do meu sangue, entras
 por meu nariz quando respiro, vês 
pelas minhas pupilas, lanças fogo
 nas palavras que minha boca diz.
 E agora que faço?, como posso
 desterrar-te de mim ou adaptar-me
 a conviver contigo? Principie-se
 por demonstrar maneiras impecáveis.
 Bom dia, tristeza 






 Amalia Bautista

sábado, 3 de outubro de 2015




No primeiro dia que saí contigo 
disseste que o teu trabalho era estranho. 
Mais nada. Todavia, eu sentia
 a pele a rasgar-se como trapos 
de cada vez que me tocavas com a mão. 
E os teus olhos pareciam-me punhais
 a fazer-me doer os meus. 
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa: 
tu orgulhavas-te da tua arte,
 mais subtil e directo em cada dia
 e eu nunca percebia nada. 
Mas agora sei. 
Já conheço o teu ofício: 
Atirador de facas. 
A mais certeira atiraste-ma ao coração. 






 Amalia Bautista

domingo, 3 de maio de 2015




No fim de contas são poucas as palavras 
que nos doem de verdade, e muito poucas 
as que conseguem alegrar a alma.
 E são também muito poucas as pessoas 
que nos fazem bater o coração, e menos
 ainda com o correr do tempo. 
No fim de contas, são pouquíssimas as coisas 
que na verdade importam nesta vida: 
poder amar alguém e ser amado, 
não morrer depois dos nossos filhos. 





 Amalia Bautista
(Foto de Natalia Drepina)

quarta-feira, 15 de abril de 2015




Ela sou eu também. Mesmo sem querer, 
mesmo não querendo uma nem outra, 
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me 
quando escreve por mim, quando não se conforma, 
quando quer tudo. 
Ela, a das lágrimas de raiva,
 a que nunca te beija com meus lábios. 





 Amalia Bautista
 (Trad. A.M.)

sábado, 21 de fevereiro de 2015




Até quando no túnel sem saída, 
no bosque feito de espinhos, no poço? 
Até quando instalada na esperança 
dos que nada esperam? 
Até quando perdida em labirintos, 
em cidades sem luz, em pesadelos 
que não terminam quando acaba o sonho? 
Até quando engolindo
 névoas espessas, desconcerto, vertigem? 
Até quando sem ti? 
Até quando com outros?





 Amalia Bautista
(Foto de Nishe)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Estou ausente



Todos os dias digo, sussurrando,
 mantém o equilíbrio. Tudo espreita, 
tudo assusta, a vida inteira pende-te
 de um frágil fio e de uma sorte injusta.
 A tua vontade não pode muito. 
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.





 Amalia Bautista

segunda-feira, 24 de março de 2014

Estou ausente



Não interessa se falho na tarefa, 
ao fim e ao cabo o imutável sempre
 continuará imutável, e nada 
somo ou tiro. A lua estará quieta
 despertando-me sempre. Enquanto as margens
 continuarão rasgadas pelo mar. 
O sol continuará esse implacável
 assombro. Sempre haverá uma aranha
 a vomitar cristal e seda juntos. 
Sempre haverá névoa. E continuará
 a feroz ternura das tuas mãos. 




 Amalia Bautista
 (trad. Inês Dias)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Perguntas e respostas


Eu sempre perguntava coisas tontas,
é certo. Perguntava, por exemplo,
se voltarias a amar-me tanto
como nos dias do amor mais jovem,
ou mesmo mais, ou mesmo mais que nunca,
mesmo mais que a ninguém, e se serias
capaz de confessá-lo ante qualquer.
É certo, perguntava coisas tontas,
não merecia uma resposta séria.
Aquele ser, mais escuro que a noite
mais escura da alma, respondia
sem olhar-me nos olhos: «Nunca mais.»




Amalia Bautista

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ou num poema


Deveriam ter-se conhecido
em algum ponto morto da história,
nesse país de sonho, navegando
pela mente de Deus ou num poema.
Ela, cheia de flores e pela água,
ela própria uma flor extravagante
cujo aroma desterra a sensatez.
Ele contempla absorto sobre o branco
impoluto da neve como caem
as pétalas vermelhas de outra flor.


Amalia Bautista

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mil noites menos uma


Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.



Amalia Bautista