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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

não é um dia para palavras





Hoje é um dia reservado ao veneno 
e às pequeninas coisas
 teias de aranha filigranas de cólera
 restos de pulmão onde corre o marfim
 é um dia perfeitamente para cães
 alguém deu à manivela para nascer o sol 
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
 alguém que não percebia nada de comércio
 lançou no mercado esta ferrugem
 hoje não é a mesma coisa
 que um búzio para ouvir o coração
 não é um dia no seu eixo
 não é para pessoas
 é um dia ao nível do verniz e dos punhais 
e esta noite
 uma cratera para boémios
 não é uma pátria
 não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
 como chumbo derretido na garganta
 um peixe nos ouvidos
 uma zona de lava
 hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
 com sirenes ao crepúsculo
 a trezentos anos do amor a trezentos da morte 
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
 não é um dia para homens
 não é para palavras 






 António José Forte

quarta-feira, 15 de maio de 2019

um dia a mais ou a menos na alma



Dente por dente: 
a boca no coração do sangue: 
escolher a tempo a nossa morte e amá-la. 







 António José Forte

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

de repente



Falámos tanto ou tão pouco que de repente o silêncio que se fez foi essa patada no peito de que guardamos a marca quando agora choramos, quando estendemos as mãos carregadas de dedos mortos, sonhámos tanto que mais de uma vez tivemos de matar, que mais de uma vez estoiraram os olhos sob a pólvora das lágrimas e as tuas mãos voaram estilhaçadas, jogámos tanto que para não nos perdermos arriscámos tudo, até tornarmos a morte uma coisa nossa, tão nossa que é ela que anda agora vestida com a nossa pele e os nossos ossos, escorregando pelas paredes de cabeça p'ra baixo ou subindo pelo interior dos bicos, olhando do alto o sangue que ficou no centro, entre os carris, passando de cadafalso em cadafalso com os lábios furados pelas unhas, com a cintura roxa das dentadas da noite, da miséria dos dias. 





 António José Forte

quarta-feira, 28 de junho de 2017

prefácio




Ao nível do mar
 como o nome da flor do vinho
 murmurado entre relógios de carvão 
 escrito devagar na cal do silêncio
 como o lençol de púrpura
 no peito dos amantes 
 de costas para a morte 
 ao nível do mar 
 como um cardume de palavras cintilantes
 no horizonte de cinza e de pavor
 como um cavalo branco toda a noite
 de estrela para estrela
 ao nível do mar
 como a flor que se abre na boca dos suicidas
 um homem 
 ferido de morte 
 vai falar 






 António José Forte

segunda-feira, 18 de abril de 2016




Alguma coisa onde tu parada
 fosses depois das lágrimas uma ilha, 
e eu chegasse para dizer-te adeus
 de repente na curva duma estrada

 alguma coisa onde a tua mão 
escrevesse cartas para chover
 e eu partisse a fumar
 e o fumo fosse para se ler

 alguma coisa onde tu ao norte
 beijasses nos olhos os navios 
e eu rasgasse o teu retrato 
para vê-lo passar na direcção dos rios

 alguma coisa onde tu corresses
 numa rua com portas para o mar
 e eu morresse
 para ouvir-te sonhar 








 António José Forte

quinta-feira, 17 de setembro de 2015




Veio do outro lado do mar 
 pronunciado pelo fogo
 e jaz nos jardins suspensos sobre a morte
 como um vómito do coração
 o nome podre de ninguém 






 António José Forte
 (Foto de Mariam Sitchinava)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ainda não


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração



António José Forte