Mostrar mensagens com a etiqueta Cristina Peri Rossi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cristina Peri Rossi. Mostrar todas as mensagens

domingo, 24 de abril de 2022

a paixão



Saímos do amor como dum desastre aéreo 
Tínhamos perdido a roupa os documentos a mim faltava-me um dente e a ti a noção do tempo 
Era um ano longo como um século ou um século curto como um dia? 
Por cima dos móveis pela casa só despojos quebrados: copos retratos livros desfeitos
 Éramos sobreviventes duma derrocada dum vulcão de correntes enfurecidas e despedimo-nos com a vaga sensação de termos sobrevivido mas não sabíamos para quê.






Cristina Peri Rossi

terça-feira, 24 de janeiro de 2017




desde o momento em que deixámos de amar-nos
 existe apenas uma grande desordem. 








Cristina Peri Rossi
(Foto de Mariam Sitchinava)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dedicatória


A literatura separou-nos: tudo o que soube de ti 
aprendi-o nos livros
 e ao que faltava, 
eu pus-lhe palavras. 






 Cristina Peri Rossi

terça-feira, 20 de janeiro de 2015




Ferida que fica, após o amor, nas costas do corpo. 
Talho profundo, cheio de peixes e bocas vermelhas, 
onde o sal dói e arde o iodo, 
que tudo corre ao longo do navio,
 que deixa passar a espuma
 e tem um olho triste no meio. 
Na arte de navegar,
 como na arte do amor, 
nenhum marinheiro, nenhum capitão,
 nenhum amante, nenhum armador, 
ninguém pode evitar esta espécie de feridas, 
escoriações profundas, com o comprimento 
do corpo e a fundura do mar,
 cuja cicatriz não desaparece
 e que usamos como estigmas de passadas navegações, 
de outras travessias. Pelo número de escoriações
 do navio, sabemos o número das suas viagens;
 pelas escoriações da nossa pele, 
quantas vezes é que amámos. 





 Cristina Peri Rossi  (Trad. A.M.)
 (Foto de Laura Makabresku)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Arte de navegar


Não conhece a arte da navegação
quem nunca vogou no ventre de uma mulher,
remou nela, naufragou
e sobreviveu em uma de suas praias.


Cristina Peri Rossi

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Procura-se


Musa procura-se. Abstenham-se fracas
ressentidas travestis e invejosas.
Salário baixo
noites de amor intenso
e livros como filhos.



Cristina Peri Rossi